• Carla Kirilos

VOTERNIDADE


Que delícia escrever sobre este tema! Você já conhecia esta palavra? Fui apresentada a ela através do instigante livro da psicanalista Sonia Pires: “Voternidade – Ser avô, ser avó: um doce desafio.”


Neste livro, a autora traz algumas importantes reflexões sobre o papel dos avós nestes novos tempos. Segundo ela, há os avós pronto socorro, os avós pais substitutos, mas, há também, a casa dos avós, que é o lugar precioso de abrigo e aconchego. Ela nos apresenta, ainda, a ideia da função “voterna”, que é uma relação sem compromisso e despretensiosa, que pode abrir espaço para manifestações inusitadas, e ao livre acesso à potência criativa do brincar. E, assim, aprendi que voternidadetraz, em seus significados, o estado de ser, de vivência imbricada com presença e afeto, de querer ser feliz e fazer feliz com responsabilidades diferentes da maternidade e/ou paternidade.


Ao ler o livro, confesso que fiquei tentando me identificar com as análises que a autora apresentava e, apesar de interagir com as ideias dela, fui construindo meus próprios conceitos para a palavra voternidade tendo, como fonte de inspiração, os meus quatro amados e abençoados netos.


A voternidade me parece ser uma experiência que vai além de ser uma avó! Creio que os avós se constituem como uma memória viva do passado e, através deles, é possível conhecer a história da história, um relato vivido dos fatos e da experiência vivida. Reviver essas vivências com os netos, permite aos avós ver o mundo através de “olhos novos”: por um lado, algumas experiências são vividas e revividas de outra forma; por outro lado, as questões e observações dos netos permitem aos avós dar continuidade às experiências.


Os netos são uma audiência nova para as experiências dos avós: novos em idade, com outras perspectivas sobre os acontecimentos; e novos porque os avós nunca partilharam estas vivências com eles. Desta forma, podem evitar ser repetitivos, e obter mais atenção. O que, geralmente, é recompensador.


No entanto, pela minha própria experiência, defendo que a voternidade pode sim oferecer presença, ajuda, relação de afeto, cumplicidade, mas sempre considerando a necessidade dos pais, e tendo a lucidez de que os personagens principais da/na educação dos netos (e é importante que assim seja), são os pais. A voternidade precisa dar o espaço necessário para que a maternidade/paternidade seja vivenciada, aprendida, respeitada e fortificada.


Além disso, é reconfortante para mim a ideia de que os avós são sábios porque tem certeza de que podem e irão aprender muito com seus netos. Não existe neles a ilusão de que sabem tudo, como ocorria quando eles se tornaram pais. Estão sempre prontos para aprender uma gíria nova, e a divertir as crianças com sua espalhafatosa ignorância diante de um personagem de desenho desconhecido para eles, ou diante da facilidade com que os pequenos lidam com a tecnologia. E como não morrer de rir quando, do nada, eles lhe perguntam: _ Vó, como você vivia sem Netflix?


Um dado importante para pensar, é que, quando nos referimos aos netos, normalmente pensamos neles como crianças, mas e os netos pré-adolescentes ou jovens? Muitos deles já sentiram o gostinho de correr para os avós nas horas difíceis. Recentemente, a revista Todateen, direcionada ao público adolescente, comentou em uma reportagem sobre o Dia dos Avós:


“Com décadas de vivência, os avós muitas vezes são de mais ajuda em resolver problemas do que amigos da sua idade, que têm os mesmos conflitos e dificuldades que você. Você e seus colegas estão passando por uma época de transição, a primeira, na realidade, acompanhada de certas aflições e dúvidas; mas seus avós já passaram por muitas dessas transições. É por isso que muitos avós se tornaram sábios e espertos. Busque, na sabedoria deles, orientações para suas angústias. Se por um lado os avós têm sabedoria e afeição para lhe dar, por outro lado eles também têm muito a ganhar quando estão na companhia de um jovem cheio de vigor como você. É isso mesmo! Há uma infinidade de coisas que você pode fazer para ajudar e dar uma mão para os avós. Na maioria das vezes eles já não têm as forças que tinham antes. Ou eles podem estar com problemas de saúde. Você não imagina como eles vão gostar se você os ajudar com as compras e com o serviço da casa!”


Interessante que, ao ler esta matéria da revista, lembrei-me de uma citação bíblica escrita há séculos: “Assim como os avós se orgulham dos netos, os filhos se orgulham dos pais.” ( Provérbios 17:6) Ou seja, avós podem e devem exercer influência sobre seus netos, sendo luz na vida deles.


Aprendi, na prática, que a voternidade nada tem a ver com envelhecer, mas com uma percepção da passagem do tempo e, portanto, sua valorização. É como se a vida nos desse quase o dever de aproveitá-la mais e não perder de vista que também é nossa obrigação, como avós, passar aos netos uma dimensão social, espiritual e amorosa da vida. Não seremos seus educadores no dia-a-dia, mas poderemos ser a saudade e a boa lembrança de que fizemos a diferença na formação dessas pessoas tão amadas e especiais, que são os netos, os filhos dos nossos filhos. E fica a certeza que a convivência de avós e netos é enriquecedora, gratificante, estimulante e desafiadora.











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