• Isa Mota

UMA HISTÓRIA DE AMOR


Dedicado a Thiago P. França

Um Menino como tantos outros daquela região de periferia – Oeste – local de extrema vulnerabilidade social.


Todas as manhãs, às 7 horas em ponto, lá estava eu no portão da escola. Acordava às 4h40, atravessava a cidade, da região Noroeste até a Oeste, para aguardar a entrada dos alunos e olhar em cada rostinho dos mais quietinhos aos “pinga fogo”, como chamávamos os levados, e tentar identificar o que se passava em cada uma das cabecinhas dessas lindas crianças. Eu amava esse momento.


Com o tempo, passei a conhecer todos e saber de suas histórias. Todas as histórias. Aprendi todos os nomes, sabia quem faltava às aulas. Se um aluno faltasse três dias, eu imediatamente procurava o endereço e ia buscá-lo para a escola. Muitas vezes, chegava na casa do aluno e o mesmo estava trabalhado de “Campana” (nome dado ao funcionário do tráfico que avisa aos chefes que a polícia está entrando no morro). A mãe justificava que o garoto estava trazendo dinheiro para casa, o pai desempregado, ou preso. Minha tarefa se complicava nesse momento. Eu teria que procurar o chefe do tráfico para negociar a ida do aluno à escola. Usava argumentos como: — Olha! Se ele não for para escola, você não terá mão de obra qualificada para gerenciar seu negócio mais tarde! Para seu negócio prosperar seus funcionários precisam saber ler e escrever, dominar a tabuada, saber argumentar (levar um papo reto), ser esperto, não permitir que ninguém o engane! Isto, só conseguirá frequentando a escola! Sugeria um horário após as aulas para o trabalho. No outro dia, lá estava o aluno na escola. Minha alegria era imensa. “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena”. (Fernando Pessoa).


Também vigiava quem estava sem uniforme, quem fazia hora na padaria, que ficava em frente à escola. Muitos tentavam se esconder no comércio para perder o horário de entrada e entrar só no segundo horário, para terem um tempinho a mais de prosa com os colegas, ou para matar aula daquele professor que não tinham feito o para casa, também para flertar com as menininhas que passavam. Coisas de adolescentes.


Mas eu estava lá! Como um “dois de paus “a olhar para todos os lados, nada me escapava. Quando se aproximava o horário de fechar o portão, atravessava a rua e procurava dentro da padaria. Sempre havia três ou quatro escondidos entre as gôndolas. Era muito engraçado. Eu não dizia nada, só dava uma olhada, fazia um sinal com a mão – de venha – caminhava para a porta. Todos, sem exceção, me acompanhavam. O dono da padaria, que sempre estava no caixa, me olhava com um risinho no canto dos lábios e dizia: — Ninguém escapa a seus olhos hein? Eu fazia “cara de brava”, e saía. Não podia deixar que eles percebem que estava sorrindo por dentro.


Nessa época, comecei a perceber que dois alunos, irmãos, chegavam sempre atrasados. O mais novo com olhar muito triste, roupas sujas, magro, amarelo e sempre solto durante todo o dia nas ruas do bairro. Pude perceber que, apesar de tudo, era curioso, esperto e disposto. O tráfico iria arrebanhá-lo, logo, logo! Isso eu não podia permitir!


Não levou muito tempo para descobrir que a mãe havia falecido e os mesmos estavam sendo criados pelo pai. A dificuldade era imensa. Não tinham alimentação e nem roupas adequadas.


Algumas semanas depois, o mais velho foi atropelado na BR e veio a óbito. Thiago ficou sozinho. Não havia outra opção, o adotei de coração. Ele passou a chegar junto comigo na escola e ficava durante todo o dia, comia, brincava, andava pela escola atrás de mim como uma sombra. Entrava na minha sala, quando queria. Nem todos os funcionários gostavam de vê-lo andando pela escola, pensavam que era o famoso “X9” (nome dado a quem conta o mal feito do outro), mas não era. Por muitos anos foi assim, eu na direção da escola, com meus filhos e o Thiago a tiracolo.


Assim, tive oportunidade de literalmente vigiá-lo, orientar, direcionar e amar, (ficar na cola, como ele mesmo dizia. — A Senhora não dá uma folga hein?) como se fosse meu filho. Não podia deixar mais um adolescente se perder em um bairro violento, onde a única perspectiva era se tornar “trabalhador do tráfico”.


Seu primeiro emprego foi na ASSPROM, onde permaneceu até os dezoito anos. Seu pai conheceu uma nova mulher e foi morar em outra cidade. Thiago, mais uma vez, ficou totalmente sozinho. Logo depois, arranjou um emprego e mudou-se para o Rio de Janeiro, permanecendo por alguns anos. Teve alguns amores, mas não se casou. Hoje, mora na cidade de Papagaios tomando conta do pai, atualmente separado da segunda esposa, que adoeceu, precisou fazer um transplante.


Criamos um laço amoroso de mãe e filho. Nessa época, eu também estava me sentido perdida, sozinha, triste e abandonada. Talvez ele nunca tenha percebido que o seu amor e dos meus filhos, Sérgio, Vitor e Caio me salvaram.


Hoje sei que eu pouco fiz por esse menino que me apareceu para se juntar aos meus três amores, e me trazer novo ânimo e coragem. Eu não podia decepcioná-los, precisava lutar, fazer deles homens de bem!


“Deus foi muito bom comigo, tive duas mães nessa vida, uma foi embora cedo, mas me deixou a senhora de presente”. (Thiago P. França)


“Isso não tem preço”.



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