• Dayanne Carvalho

UM DESPERTAR OUTUBRO DE 2011


Comecei a escrever aos 14 anos. Este texto, escrevi aos 15. Emocionei-me ao ler. Como eu já vivia um processo de autocuidado e autoconhecimento desde nova. É lindo! Hoje, lendo tudo o que escrevi anos atrás, o cuidado que sempre tive comigo. Que maravilhoso reconhecer isso agora, perceber isso agora.

Recebam com carinho estas analogias confusas de uma menina que sempre sonhou e sempre reconheceu a importância que se tem no mundo.

UM DESPERTAR - OUTUBRO DE 2011

É tempo de estudar e escrever.

Ela excluiu o facebook e desligou o celular. Nada de mensagens. Nada de telefonemas. Encontrariam-na, agora, às seis e meia da manhã, observando o sol tomar conta do prédio alto da rua de baixo, ou sentada na sorveteria lendo sobre Catherine Deneuve. Por um momento, ela se sentia feliz. Aliás, tudo estava tão ótimo. Seu relacionamento familiar, seus amigos. Ela dizia ser íntima de Deus. Como poderia, então, ela se sentir triste? Ela tem amigos, família, Deus!

Não ousei perguntar. Sua justificativa me deixaria preocupadíssima. Suas justificativas sobre um mundo que a fazia triste sempre me preocupavam. Ela era doce, decidida, amiga. Como assim, mundo?

Como assim, que entendê-la não era difícil. Prático demais. Nem levaria muito tempo. Passei a observá-la. Trasbordava segurança e felicidade. Ela era rara. Era feliz e inteligente. Inteligente, de vez em quando, dizia ela rindo. Dançava. Doava conselhos. Comia chocolate sem se preocupar. Depois, arrependida, sentia vontade de chorar. Mas, o arrependimento passava logo.

Resolvia que tinha de começar a fazer exercício físico. Tomava muita Coca-Cola, e tinha uma amizade legal com um velho de setenta e quatro anos que tinha uma barbearia numa rua movimentada do bairro que mais amava em BH, Santa Tereza! Dava corda até. Passava horas ali dentro do pequeno estabelecimento, tomando cafezinho e escutando as boas histórias do homem. Ela era assim. Gostava de ouvir o que as pessoas tinham a dizer. Principalmente pessoas mais velhas. Sempre pretensiosa, com um sorriso no rosto, pergunta para todos sobre seus sentimentos, fraquezas e esperanças. Seja sincero! Como você está se sentindo hoje?

Essa espontaneidade também chamava atenção. Era conversada. Tinha que dar sua opinião sobre tudo, se não, sentia que não fazia parte da coisa toda. Ah, gostava de plateia. Amava. Falava em público que era uma beleza.

Por que você se sente triste? Fala tão bem quando se tem plateia, se expõem sem medo, ouve as pessoas. Por que tão triste? Ah sim, é melancolia? Entendo. Já passou? Sei.

Mentira! É melancolia nada. Ela disse que era só porque gosta da palavra e gosta de falar que se sente melancólica. Se bem que essa falsa melancolia, acredito eu, a fez bem, a moldou, ela se tornou quem ela sempre quis ser.

Ela passava horas escrevendo. Escrevendo utopia que só ela gostava de ler. Parou. Aí, passou a escrever romantismo barato. Escrevia sobre amor, porque as pessoas gostavam de ler. Parou. Como escrever sobre uma coisa que sei lá o que é? Dizia. Concordei. Pois é, esperei ela perceber o que tinha de escrever. Enxergar.

Escreva sobre o filme que a fez chorar sexta à noite. Escreva sobre o sol que engole o edifício alto da rua de baixo. Escreva sobre o velho da barbearia. Escreva como é difícil ser você e ser melancólica. Pronto. Amou a ideia. Desenrolava histórias sobre seu dia normal, que ninguém no mundo gostaria de saber. Mas desenrolava. Escreva tudo o que lhe vem à cabeça, disse uma amiga. Aprovou o conselho. Amava escrever sobre tudo o que lhe vinha à cabeça.

Mas, e aí? Pra quê escrever?

—Escrever me faz livre, me faz esquecer, me faz ficar surda. O latido do cachorro da casa da frente, cessa. Meus pensamentos, se calam. Escrever é silêncio. Tranquilidade. Pra pessoas melancólicas, acho uma ótima terapia.

Viu como ela é boa com justificativas?




Destaques
Arquivos
Siga-me