• Layla dos Santos

UM CONSELHO: UMA PAUSA


Essa semana, uma amiga me procurou me pedindo o contato do meu psiquiatra. Ela disse que está à beira de um surto. Não tiro a razão dela: em casa o tempo todo, cuidando de duas crianças, de tarefas domésticas, trabalhando por teleaulas, poucos momentos de lazer e diversão... Preocupada com assuntos familiares e insegura com a pandemia. Super natural que ela esteja nesse estado. Afinal, o mundo tá um caos, e a gente se desorganizou internamente. Mas, uma coisa me intrigou muito. Ao final da nossa conversa, minha amiga disse algo do tipo: — Eu tenho que ficar bem, tenho duas filhas para criar.


Eu fiquei martelando essa frase o dia inteiro: “Eu tenho que ficar bem!”. Fiquei pensando que somos educados numa cultura ocidental e cristã que nos apresenta como norte, a felicidade e o lado bom da vida, e nos tira a chance de curtir a tristeza e os momentos de declínio. Digo curtir no sentido mais literal possível. Penso nos barris de vinho ou cachaça curtidos na madeira. Penso nesse processo, no quanto a bebida precisa se render à madeira para extrair o sabor dela.


Está bem. Eu concordo que soa estranho se entregar a tristeza, aos momentos de angústia e desequilíbrio. Beira a fraqueza. Pois, é nesse ponto que eu quero chegar. Já pensaram que não fomos criados para pausas, descaminhos, tropeços, desacertos, incertezas, erro? E sabem por quê? Porque crescemos numa cultura que nos dita o tempo todo como se portar e nos dão o tempo de cumprimento de cada coisa. Ensinam-nos também a competir uns com os outros para estarmos preferencialmente no topo. E que o bem e o belo são o único caminho possível. Essa cultura nos engana feio por não contar a nossa natureza cíclica de vida-morte-vida. Ou seja, algumas coisas precisam morrer para outras renascerem. É um caminho natural, mas, quando morremos, costumamos querer sair logo dessa situação. Sem colher o que é próprio de cada momento.


Eu já me rendi à madeira algumas vezes. Ora ou outra, me deparo com o meu processo de “curtimento”. No início, eu resistia, porque queria muito estar bem. E quanto mais eu fugia, mais eu apanhava. Numa situação específica, lembro-me de fechar os olhos e a sensação era de queda no abismo profundo e escuro. Eu precisei passar por muita coisa para serenar e olhar para esse momento com os olhos do coração. Aprendi que esses momentos são meus mestres. Um mestre muito velhinho que fala baixinho e me pede para silenciar. Dá dicas de se aquietar. De invernar e deixar ir algumas coisas, pesos, bagagens. Diz que o aprendizado quer de você uma mochila leve. Não pretende te dar várias lições de uma vez. Pois, ele quer que aprenda a saborear o amargo e o azedo com a mesma leveza que saboreia o doce e o salgado.


Pois bem, a pandemia está aí. Estamos vivendo algo muito novo e uma bela oportunidade de maturarmos. Muitas pessoas, nesse processo, perderam o chão. Tiveram que olhar pra dentro, e é doloroso isso... Mas, se eu tivesse que dar um conselho, esse seria: desfrutem desse momento, dentro de cada possibilidade que lhe é possível. Aproveitem o inverno e se recolham. Olhem para dentro. Se dispam diante do espelho da alma. Se for preciso, chorem. Deixem que as águas se renovem. Elas virarão nutrição. Vejam que pausas fazem parte do processo. Na música existe pausa e é fundamental para criar um ritmo. O silêncio é uma pausa para escutar a música que está dentro. O inverno é outra pausa da natureza: a vida pede descanso e os animais se recolhem... A seiva das plantas fica quietinha na raiz, a terra ganha força para renascer na primavera. Acredito, mesmo, que a quarentena é uma pausa. Um presente do universo para a era que vivemos. Espero, mesmo, que cada ser possa desfrutar desse momento.



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