• Ana Reis

TRABALHO - A ARTE DE CUIDAR!



O universo do trabalho muitas vezes conduz e constrói um percurso inesperado com base na produção, voltado para a demanda de subsistência. Sua importância enquanto atividade física ou intelectual envolve a realização voltada para se fazer algo, perpassando a transformação, realização pessoal, desenvolvimento econômico, todos juntos ou fragmentados.


Você já parou para pensar sobre o reconhecimento da sua profissão? Como a valorização social de algumas profissões faz com que ocorra em paralelo a invisibilidade de outras? Reduzindo-as a um crachá, uma placa, um folder, sem mensurar os grandes propósitos envolvidos de cada indivíduo que caminha junto com aquele profissional. O motorista que te leva para o trabalho ou para as baladas, por determinado período, tem sua vida nas mãos. O gari que recolhe o lixo da sua casa torna sua vida mais limpa e organizada, a moça do restaurante produz o alimento que te nutre fisicamente e emocionalmente, dependendo do que você projetar naquela refeição. A dentista que alivia sua dor intensa em um momento de vulnerabilidade, o psicólogo que te incita ao caminho do autoconhecimento, ou a professora que lhe ensinou a importância da sua construção como ser social, muito antes da jornada para aprender a ler e escrever.


Citar algumas profissões, dentre tantas, é uma forma de apresentar como todas cuidam de algo ou alguém de forma direta ou indireta. Mecanizados, ou com uma venda sobre os olhos, que impede de vislumbrar o processo, sobreviver ao invés de viver e ver as demais pessoas com outros olhos e a importância necessária! Por isso, vou lhes contar sobre como uma mudança no olhar sobre um contexto de violência me presenteou com uma profissão que tem ganhado muita notoriedade na atualidade, mas, é muito presente em várias culturas ao longo da história!


Algumas vivências profissionais são tão profundas e intensas que o tempo passa por diferentes percepções, ganha outro tônus, sentido e propriedades! Às vezes, é como se tudo ficasse em câmera lenta, os cheiros se apresentam de forma mais intensa, ou será o olfato que se torna mais aguçado? Os sussurros ganham proporções vorazes, as trocas de olhares ganham outra dimensão, buscam um porto seguro, traduzindo plenamente a conexão naquele espaço! Seja entre parceiros, entre equipe, ou melhor, entre todos os envolvidos, muitas vezes o silêncio impera e o corpo expressa as necessidades do momento. A sensação é de que uma grande orquestra flui, por meio da sensibilidade, conhecimento e do reconhecimento e respeito do trabalho que cada um exerce.


Uma descrição singela do ambiente que exala a luz da vida e o renascimento de cada mãe durante o parto humanizado. O parto humanizado visa a contemplação de cuidados e orientações junto à gestante e acompanhante, com a construção dos processos envolvendo respeito e tomada de decisões conscientes durante todo o processo. Sendo a Doula a profissional que agrega conhecimento e partilha acerca do atendimento durante a gestação, parto e pós-parto.


Tal atuação perpassa os cuidados femininos com foco no suporte físico/emocional, associado às medidas de conforto e preparação para o parto, por meio dos métodos de alívio para dor, movimentação e posições que auxiliem no conforto e evolução do trabalho de parto em si. Todas essas funções não envolvem avaliações clínicas, e sim a arte de cuidar e possibilitar por meio de construção conjunta de um parto seguro.


Há mais de quinze anos, eu presenciei um parto pela primeira vez. Trabalhava em um laboratório, e quando realizava a rotina de coleta dentro do hospital, permanecia muito mais tempo que o necessário na maternidade e berçário. Era instintivo, mas, minha admiração era vista no olhar, e, em pouco tempo, todos me chamavam para assistir os partos durante o plantão (risos).


O primeiro parto que assisti foi um pouco impactante, não pelo processo natural, mas porque envolvia várias práticas que, na época, para mim, já eram muito invasivas. Hoje tenho pleno conhecimento que eram violências obstétricas extremas. Mas, eu sempre consegui ver além daquele processo árduo, desgastante, de uma equipe pouco preparada e com conhecimentos limitados naquela época. O que eu via era a mulher que chegava e outra mulher/mãe que saía tempos depois, deixando claras as grandes metamorfoses enquanto processos de conhecimento e reconhecimento do próprio corpo, pensamentos, sentimentos que florescem com a chegada da maternidade.


Diante desse contexto, após alguns anos, decidi dar espaço à Doula que há tantos anos já se encontrava bem aqui, mas, naquele momento, eu não soube entender minha intuição, meu sentimento e meu propósito de vida. E, postergar essa entrega foi algo necessário para vivenciar tantos outros processos pessoais, realizar cursos em diferentes áreas, conhecer tantas pessoas, estar em tantos outros espaços profissionais e reconhecer as necessidades que me fizeram mergulhar fundo no trabalho de Doula e fotógrafa de parto.


Às mães, toda minha admiração pela entrega e gratidão ao poder vivenciar esse universo tão único de um amor imensurável que transborda e transforma a todos nós!


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