• Camila Colares

O PRESENTE MAIS PRECIOSO


Quando foram anunciadas as medidas de isolamento social, toda pessoa com crianças na família certamente se preocupou em como seria a adaptação delas à nova realidade. Se, para os adultos, é uma situação difícil de se acostumar, seria sensato presumir que as crianças sofreriam ainda mais com o confinamento.


Ser tolhido de ir e vir, ficar privado do convívio com pessoas queridas, restrito a ambientes de concreto, sem usufruir do frescor de atividades ao ar livre, é algo muito intenso emocionalmente, e uma realidade para a qual ninguém estava preparado para enfrentar.


No entanto, muitas famílias têm relatado que as crianças estão gostando da quarentena. Várias delas estão falando com mães e pais que estão felizes e até incluindo o agradecimento pela quarentena em suas orações. A princípio, isso pode soar estranho. Como as crianças, tão cheias de energia e vitalidade, estão satisfeitas em ficar confinadas em um mesmo ambiente, por meses, muitas vezes, sem espaço para expandir e correr?


Não parece fazer sentido! E não faria mesmo, se a realidade fosse outra.


A avaliação positiva das crianças sobre uma situação tão restritiva e difícil impõe uma reflexão mais cuidadosa. Mesmo diante de tantas perdas facilmente perceptíveis até em uma análise superficial, o que o isolamento social trouxe de tão precioso às crianças, que fez surgir essa reação inesperada?


A resposta está na vida (a)normal que existia antes de tudo isso acontecer. A rotina dessa cultura individualista e capitalista impõe que as pessoas aceitem cargas cada vez mais extenuantes de trabalho. Os momentos em família são espremidos entre pequenos intervalos ao acordar ou antes de dormir e em finais de semana, nem sempre tão livres assim, em que se pretende dividir o tempo entre momentos para cuidar das crianças, da casa, para reservar um tempo para a vida do casal ou de diversão com os amigos e, se sobrar tempo, cuidar um pouquinho de si própria.


Muito se discute sobre a terceirização da educação das crianças. Deve ser doloroso para várias mães e pais que se veem representados em descrições duras trazidas em textos utópicos de uma parentalidade idealizada, quando estão se esforçando para oferecer o melhor para seus filhos e filhas. Como compatibilizar as jornadas de trabalho impostas pelo mercado, ao exercício de uma parentalidade consciente? Nem sempre é uma questão de escolha.


A rotina é seguida no modo sobrevivência, levando um dia após o outro sem tempo para pausar e refletir se ela está fazendo sentido. O objetivo é oferecer o melhor às crianças, sem sequer ponderar o que de fato é melhor para elas. Sem sequer perguntar a elas o que lhe seria mais precioso.


Os anúncios fazem crer que o melhor é alcançar o padrão que eles estabelecem. E para isso, é preciso se dedicar cada vez mais ao trabalho, visando alcançar renda suficiente para pagar por tudo que as crianças “precisam”.


A escola precisa ser a primeira em aprovação nos processos seletivos para universidades, mesmo que a criança ainda esteja na educação infantil. É impossível deixar de oferecer atividades extracurriculares de esportes, línguas, artes maciais. Todas as amiguinhas têm aquela bonequinha minúscula, que pelo valor, só pode ser banhada em um metal precioso! Que surpresa ao chegar à loja e perceber que é apenas um simples item de plástico. Mas a criança precisa se sentir parte do grupo, então, fazer o quê? Parcelar e esperar que o brilho nos olhos da criança dure, pelo menos, uma semana.


Diante dessa pressão que existe para se adequar ao que se vende como indispensável para uma vida completa, feliz e bem-sucedida, sempre se esforçando para conquistar um padrão ainda melhor e, muitas vezes, no intuito de amorosamente oferecer aquilo que não teve, para suas crianças, várias mães e pais perdem a oportunidade de experienciar a vida com elas.


E, nos momentos de pausa dessa rotina intensa, exaustos, permanecem todos, lado a lado, olhos vidrados em telas, ao invés de olhar para o céu.


A vida moderna ainda traz a facilidade de conectar pessoas que estão distantes entre si, enquanto afasta quem está pertinho. Claro, a tecnologia traz, sim, benefícios e, especialmente nesse momento, tem encurtado distâncias e minimizado saudades.


Não é necessário fugir do conforto da vida moderna. No entanto, ter equilíbrio é essencial. É comum vermos adultos vidrados nas conversas virtuais, enquanto crianças puxam a barra da calça, pedindo um olhar. A criança recebe o rótulo de impaciente ou apegada demais, enquanto deixa-se de reconhecer que é difícil para elas aceitar as migalhas de atenção que são jogadas de tempos em tempos.


E, de repente, tudo muda! Decreta-se que todos devem permanecer em casa, isolados. Não tem mais tempo perdido no trânsito, acabou as atividades extracurriculares. Confinados, ainda que com várias obrigações de trabalho e de cuidados domésticos, não há para onde fugir.


Enfim, em um cenário totalmente atípico e longe do idealizado, as crianças ganham o presente mais precioso que jamais poderiam imaginar: PRESENÇA!





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