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  • Beth Bretas

PRÍNCIPE CAMINHONEIRO


Fonte da imagem: smokebuddies


Iniciamos uma nova viagem... Ano 2021, ainda testando vacinas, ainda com pandemia...


“De acordo com a Astrologia, é um Ano Aquariano em que o cenário coletivo poderá ter muitas inovações - sugerem instabilidade na economia, mudanças marcantes na sociedade, um boom da tecnologia e disposição coletiva para fazer acontecer. “


“De acordo com a Numerologia, as previsões mostram um ano universal regido pelo número 5, que, assim como a trama de As Five, traz uma energia de novidades, incertezas, rebeldia, muitas mudanças, medo do novo e vontade de se apegar ao que é seguro.”


“De acordo com o Horoscopo Chinês, é o ano regido pelo Boi do elemento Metal. O Boi é independente, responsável, disciplinado e muito trabalhador. O metal traz a ambição, a determinação, a ordenação e o ritmo necessário para o alcance de objetivos. “


“De acordo com o Tarot, o arcano do ano é o Papa, que nos convida a rever convicções... Nos convida a repensar conceitos e ver a vida por novos ângulos. O Papa mostra que o que estará em jogo em 2021 é a nossa fé.


Que a nossa jornada 2021 seja um desafio abençoado. Amém.


E, assim, ao pensar na vida como uma grande viagem... Lembrei a do Príncipe Caminhoneiro.


Era jovem e dependente. Meus pais moravam no interior e me sustentavam em Belo Horizonte.

Nesse tempo, fui convidada para ser madrinha de casamento de uma amiga, no interior. Não podia recusar, havia acompanhado o namoro dos dois, no ensino médio. Mas também não aceitava ter que pedir mais dinheiro para os meus pais...


Confirmei presença e passei dias inquieta.


Semana que antecede, uma amiga de Uberaba, também da época da escola, veio me visitar. Contei meu drama. Ela, então, resolveu ir comigo e decidimos ir de carona, acreditando que uma poderia apoiar a outra e nada nos aconteceria.


Meu irmão mais velho ficou sabendo, interferiu e financiou a viagem. No silêncio, aceitei com a intenção de devolver, parte do dinheiro, assim que retornasse.


Saímos da rodoviária de Belo Horizonte, por volta de 22h, num ônibus com destino Uberlândia. Por volta das 5h da manhã, com o dia amanhecendo, descemos no trevo. Colocamos as mochilas no asfalto e começamos a gesticular, pedindo carona.


Minutos depois, um caminhão enorme parou e um senhor perguntou:


— Vão para aonde?

— Para Rifaina.

— Vou até Araxá, querem ficar no trevo?

— Queremos!


Ele abriu a porta e com muita dificuldade - o caminhão era muito alto para o tamanho das nossas pernas — subimos. Fui empurrada para entrar primeiro, pois minha amiga teve medo de ficar ao lado do caminhoneiro.


Durante o percurso, o motorista foi nos sabatinando e também contando histórias da sua vida... O tempo passou rápido e nem percebemos.


Descemos no trevo e, novamente, colocamos as mochilas no asfalto e gesticulamos. Um outro caminhoneiro parou:


— Vão para aonde?

— Para Rifaina.

— Vocês estão com sorte, vou para Pedregulho e deixo vocês no trevo de Rifaina.

Novamente fui empurrada para entrar primeiro. O dia estava lindo e a conversa animada. Quando olhei para o lado, minha amiga dormia. Senti medo e comecei a falar como uma louca para distrair a mente do caminhoneiro.

Ao chegar, ele informou que havia um ônibus, com passagem baratinha, que atendia Sacramento / Rifaina e que era melhor irmos de ônibus.


Aceitamos o conselho.


A chegada foi uma alegria, revimos tantos colegas! O casamento foi lindo. Tudo deu certo e a hora de voltar... Chegou!


Um amigo que foi para o casamento, nos deixou próximo ao trevo de Rifaina, num posto de gasolina, sem deixar de pedir que desistíssemos da ideia de carona.


Era domingo e os caminhoneiros não circulavam, o posto estava cheio de caminhões, o dia estava quente, o asfalto fumegante... A hora passava, a fome chegou... O momento se transformava em desespero.


De repente, entra no posto um caminhão. O senhor desce, nos olha, e pergunta:


— Vocês estão esperando carona?

— Para Belo Horizonte, mas parece que vai ser difícil...

— Estão com sorte, estou circulando, pois minha entrega está atrasada e não posso parar. Querem ir até o trevo de Araxá?

— Queremos.


Abriu a porta do caminhão e pediu que entrássemos e aguardássemos. Quando voltou, veio com refrigerante e lanche para todo mundo.


— Comam, pelo horário, vocês devem estar com fome.


Agradecemos e lanchando e conversando, seguimos viagem. Ele ia falando sobre a família e coisas que aconteciam na estrada.

O tempo passou, chegou o cansaço e a voz do caminhoneiro nos embalou.... Dormimos. Só acordamos com ele nos dizendo:


— Meninas, chegamos. Não vou deixá-las no trevo, vou deixá-las num lugar seguro e vou tentar arrumar alguém de confiança para levar vocês. Está ficando tarde.


Quando entramos num posto, cheio de caminhões, um caminhão fazia manobra para sair. Ele buzinou, desceu, foi em direção a esse caminhão. Conversou com o motorista e eles vieram em nossa direção.


Fomos apresentadas: este aqui é um amigo confiável que vai levar vocês até Contagem. Já terá anoitecido. Por favor, peguem um ônibus e terminem de chegar em casa. Tenham cuidado, meninas, boa viagem – disse batendo de leve, nas costas do seu amigo.


Enquanto o caminhão manobrava, na janela, sorridentes, dávamos tchau para aquele simpático caminhoneiro.


Estávamos super agradecidas e de boca aberta, pois o moço apresentado era de tirar o chapéu. Subimos em seu caminhão e descemos a serra, com um sol maravilhoso acompanhando o caminhão ao lado de uma linda vegetação - tudo harmoniosamente entrelaçado naquela estrada com aquele caminhoneiro.


Ele era muito alegre. Estávamos muito encantadas. Conversávamos, ríamos, enquanto ele contava sua história.


Era ex-piloto de aeronave – mas confessava que a sua felicidade estava naquele volante. Para ele, não existia coisa mais gostosa do que descer a serra com o seu caminhão.


— Por favor, me passem a água... Temos lanche, meninas, se ficarem com fome...


Olhávamos para ele e nos entreolhávamos com suspiros...


Lindo, gentil, educado, alegre.... Um príncipe!


Não dormimos e nem percebemos quando chegamos em Contagem. Descemos, agradecemos muito. E cada um seguiu seu caminho.


Pegamos um ônibus até o centro e depois outro para o bairro São Francisco...


— E ele?!


— Foi entregar a mercadoria em algum lugar.


No dia seguinte, feliz, devolvi parte do dinheiro para o meu irmão e contei nossa aventura. Ele ficou boquiaberto, sem querer acreditar.


Depois, durante semanas, fiz lindas viagens, sonhando com o príncipe caminhoneiro, pedindo ao destino que o colocasse, de novo, no meu caminho – nesse caminho em que é possível encontrar homens que respeitam meninas.


Nesse caminho, onde há meninas que podem recordar lindamente uma viagem de carona e a paixão pelo caminhoneiro.


Há um intervalo de, mais ou menos, 45 anos - quase meio século - entre essa viagem e o Ano 2021 e, entre esse intervalo, nasceu uma pergunta no tempo:


— Aonde anda o Príncipe Caminhoneiro?













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