• Rubia Arce Administradora do Blog

PERTENCIMENTO


Existe um conceito de origem africana de nome UBUNTU. Já fazem anos que conheço esse conceito, e me lembro de como me apaixonei por ele assim que o conheci. Apesar da difícil definição, Desmond Tutu resumiu ubuntu como: “a minha humanidade está inextricavelmente ligada à sua humanidade”. Trata-se de uma dependência mútua, à qual não podemos nos negar. “Eu sou, porque nós somos”, uma consideração de que, sem a existência do outro, a nossa existência torna-se irrelevante. Deste modo, influenciamo-nos mutuamente em termos individuais e coletivos.


A beleza intrínseca nesse conceito está em quanto de nós habita o outro, e/ou quanto do outro nos habita. Ter a consciência de que somos parte integrante de um todo, algo muito maior que nós mesmos, nos traz a percepção de que cada escolha que fazemos, impacta, de alguma forma, o universo ao nosso redor. E, o mais importante: nunca estaremos sós.


Eu não poderia falar sobre pertencimento, sem antes citar o poder dos encontros. É sabido que nossa existência, em muito se revela por meio do que encontramos pelo caminho. Seja qual for a experiência que adquirimos, os encontros que as proporcionam trazem consigo a realidade do que emanamos. As músicas que ouvimos, os filmes que assistimos, os livros que lemos, as pessoas com quem convivemos, o que valorizamos... Tudo isso representa a expressão de quem somos. Tudo se interliga a partir de nós mesmos, como parte integrante de um coletivo.


Coletivo: Uma palavra deveras importante, embora, de significado pouco vivenciado em nossa cultura. Apesar de alimentarmos uma cultura que subestima veementemente a coletividade, ao passo que defende o individual com unhas e dentes, sem ao menos ter a percepção disso, quando nos abrimos a experienciar o plural, experimentamos do imensurável poder do pertencimento.


O sentimento de pertencimento é tão importante para o ser humano, que ultrapassa uma mera necessidade. É o que nos faz querer estar e partilhar com outrem, ainda que ele não seja nosso igual. Sentir-se parte acolhida, pertencente a um grupo, seja ele familiar, profissional, de amigos, religioso, ou qualquer outro agrupamento que corresponda a um coletivo estrutural, nos traz a formação do entendimento de quem somos. Isso, porque, sermos quem somos perpassa as nossas convivências. É porque temos as pessoas que temos, que somos quem somos.


Importante entender que o verbo “ter”, ou “pertencer”, neste contexto, não traz uma perspectiva de dominação, ou submissão. De forma alguma. Mas, uma perspectiva de Ser, que atribui valor ao que pertence. Entender que somos parte de um imenso grupo universal, que não estamos sozinhos, nos leva a refletir sobre como nossas ações, movimentos, decisões, afetam o que respira ao nosso redor. Ao contrário da perspectiva de ser “eu” por “eu” mesma, que traz uma ideia de “faço o que quero, quando quero, e isso diz respeito só a mim”.


Não é assim. Precisamos ter um certo cuidado ao apreender técnicas de autovalorização, que são muito valiosas sim, porém, podem nos trazer um viés, que pode deturpar um pouco a realidade, quando permitimos. Sabemos que tudo que ultrapassa o equilíbrio, seja para mais, ou para menos, não traz resultados saudáveis. E, nesse caso, não seria diferente. Assim como, pensar exacerbadamente no coletivo, sem valorizar a própria identidade, também não nos acrescenta.


Existem pedaços de você em cada pessoa que te tocou ou que foi tocada por ti. Como existem pedaços de cada uma em você. A edificação da pessoa que você vai se tornando não é mérito, ou atribuição individual - somente sua, apesar de muitas pessoas acreditarem que sim. Somos quem somos porque vivenciamos um “Nós”. Porque nos permitimos nos forjar a partir de pedacinhos de outras pessoas. E, quando nos fechamos para essa imensidão de possibilidades que as pessoas trazem para nossas vidas, aos poucos, e muitas vezes, sem perceber, vamos formando uma espécie de vácuo ao nosso redor, aonde nada se propaga, ou gera, ou germina.


Quer saber quem você é? Repara nas pessoas que te cercam, naquelas que te impactam, elas te compõem. Repara, também, no que floresce ao seu redor. No coletivo ao qual você pertence. Às vezes, é só uma questão de parar um instante para perceber.


Dedico este texto às pessoas que me constituem. Em especial, às mulheres, de quem carrego pedacinhos preciosos e que carregam os meus. Elas sabem quem são, e que são. Ocupam lugar especial na minha história. Cada uma que tocou a minha vida em algum momento, que trouxe alento, cura, transformação, aconchego, e o mais importante, que me trouxe a valiosa sensação de pertencimento, que me fez pertencer. A Você, que sabe a marquinha feliz que deixou em mim, ou ainda deixa, e recebeu de mim a mesma. Eu sou o que sou porque tenho você e porque você me tem. Nossas existências se interligaram em algum momento, e fizemos valer a pena. Valiosa és em mim e para mim. Nunca duvides disso.


Talvez seja o momento de darmos um pouco mais de atenção ao que representa ubuntu em nossas vidas. Esse pertencimento a algo engrandecedor, e potencialmente dotado da beleza que carecemos para florescer.


Luz e Paz!

Até a próxima!













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