• Mariana Veloso

PARA AS MINHAS AVÓS, COM TODO MEU AMOR!


Já faz um tempo que venho ensaiado um texto com este teor. Na verdade, usar as palavras para explanar sobre duas grandes mulheres que compõem a minha vida não é tão simples assim. Escrever e elucidar sobre duas potências que deixaram um legado de amor imenso e, que a sua maneira, guiaram, construíram e foram o alicerce da família por décadas afins.


Sendo assim, resolvi fazer um desabafo em forma de homenagem para as minhas avós. Apenas, me atentei a ouvir a voz do coração e deixei a emoção falar mais alto. Não quis me preocupar tanto com gramática, gerúndios, verbos. Pois, como Machado de Assis um dia escreveu: “Os adjetivos passam, os substantivos ficam”. À primeira vista, essa frase pode até causar certo estranhamento. Mas, quando nos atentamos a ela, percebemos o quanto é simples e direta.


Os adjetivos são palavras que caracterizam um substantivo atribuindo-lhes uma qualidade. Já os substantivos servem para nomear seres, objetos, ações... Quando lemos que os adjetivos passam, entendemos que algo que é belo, um dia, pode deixar de ser. Ou, que podemos mudar a nossa opinião a respeito. Mas, os substantivos não, eles não terminam nem perdem seu valor. As avós serão sempre avós, mesmo depois de partirem. Não morrem, nem muito menos, deixam de ser lembradas pelo coração, porque deixaram marcas para a vida toda. O adjetivo pode até mudar, mas a essência não. Serão sempre sinônimos de proteção, colo e amor incondicional.


Quem tem ou teve avó, sabe do que estou falando. Assis, que é considerado um dos maiores escritores da literatura brasileira, teve uma sutileza genuína ao nos dizer de maneira simples, que precisamos dar valor ao que é essencial e não às coisas efêmeras. Que o essencial é aquilo que a gente pode guardar no coração e, como é gostoso ao tomar um café e comer um pedaço de bolo, poder lembrar com doçura das tardes de papos com a(s) vovó(s), que ao vê-las tecendo, bordando, tricotando e costurando eu me achava tão distante de poder fazer algo tão delicado, que nem ousava tentar.


Numa distância de dois anos e quase dois meses, se foram as duas matriarcas das famílias que me geraram. Uma saudade latente que é presença constante com um misto de gratidão por ter tido comigo, referências tão fortes de duas mulheres guerreiras e incríveis que são parte da construção da mulher que eu sou.


Procurei nas redes alguma definição sobre avó e, a que mais me fez sentido foi essa: “Ser avó é um abraço constante, carinho que nunca acaba, amor que fica para sempre.”


Minhas avós foram e são os pilares da minha vida! Vovó Maria Helenita (Lenita) e vovó Clélia (Sácreia), (apelidos que eram para os mais íntimos), avós materna e paterna, respectivamente, sempre foram muito ativas, fortes, integras, presentes, amorosas demais com cada um dos netos e muitas outras qualidades.


Vovó Lenita foi uma mulher à frente do seu tempo. Trabalhou fora em uma época em que mulher “tinha mesmo era que ficar em casa”, foi funcionária dos Correios (Telégrafo) e, vez ou outra, nos contava sobre como era para uma mulher trabalhar fora naquela época. Mas, que sempre enfrentou os preconceitos, olhares tortos e indiretas com classe e determinação. Ao assistir a série: “As telefonistas” me recordo um pouco de suas atividades e, consigo ter uma noção mais clara, de como era difícil para uma mulher enfrentar a sociedade para mostrar o que queria e, até mesmo, o que era preciso fazer para ajudar no sustento da sua família. Minha avó teve sete filhos (quatro mulheres e três homens), criou-os da melhor maneira que pôde, e fez isso também com os netos. Vovó nos deixou em janeiro de 2016, já cansada de lutar pela vida e, desde então, sua ausência se faz presença em nossas vidas. Sabemos que ela nos benze por onde formos. Enquanto esteve aqui, não teve um dia de minha vida, que a vi reclamar. Pelo contrário, sempre foi forte e determinada.


Vó Lenita detestava tirar fotos, a gente tinha que dar uma disfarçada pra ter a imagem dela nas fotografias, ficava brava quando descobria que estava sendo tapeada, sempre dando desculpa de que o cabelo não estava bom, a roupa não era bonita e etc...era vaidosa que só ela. Fora que tinha uma memória incrível, dessas que de vez em quando, pegava de supetão um neto distraído e perguntava:


—“E então Nana, você sabe o que são heliógrafos?”


— Bom, sei vó, eram os desenhos egípcios, ne?!


— Sim, gente, isso é cultura e vocês precisam saber...


Aliás, determinação eu também via na minha vó Clélia, que desde que se casou, morou em três cidades diferentes até ter sua casa própria. Tinha uma pensão que alimentava não só os seus, mas, também, os viajantes que por ali passavam. Tinha cara de brava, mas era um doce. Quero dizer: Não pisa no calo dela, que aí a coisa fica feia. Mãe de cinco filhos (duas mulheres e três homens) sempre foi ativa e não tinha tempo ruim para ela. Fez o que pôde para criá-los da melhor maneira possível e isso se estendeu aos netos que moraram com ela. Vovó nos deixou de maneira súbita, que nem um rompante que vem e tira algo precioso, se foi em fevereiro de 2018. Sua ausência também se faz presença em nossas vidas. Sabemos que ela nos benze por onde formos.


Vovó Clélia, que tinha saído do mundo analógico há pouco tempo, adorava um "zapzap". Era impossível não admirar a sua maestria em utilizar a ferramenta de comunicação como se nem tivesse dúvidas. Ela mandava áudios, vídeos e imagens. O grupo da família ficava sempre comunicativo. Sempre que a família se reunia a gente fazia questão de pedir pra ela contar os “causos” tudo de novo, e mesmo já sabendo cada detalhe de cor, todo mundo morria de rir. Era quase que um ritual. E, vira e mexe, ela tomava umas brejas com os netos...


A nostalgia traz as melhores lembranças, e tive sorte. Sorte demais. Cada uma em sua unicidade trouxe pro seu legado: força, amor, fé, honestidade. Valores que seguem adiante. Não aprendi a cozinhar, costurar, tricotar ou a bordar como minhas avós. Mas, tenho em mim, o amor que brota e, é grato por tudo que vivi com elas. Que sorte eu tive. Quero agradecer a VIDA pela honra de conviver com duas grandezas.


Ambas tinham uma fé inquestionável e uma forma de nos dizer, mesmo com o olhar: “Calma, filha, vai dar tudo certo! A vovó está rezando para você!”


As duas tinham dentro de si a força de um leão com alma de anjo. Davam colo, conselho, amor. Mãos de fada. Avó é mãe duas vezes e, meus primos e eu sabemos bem como foi grandiosa a presença dessas duas anjas em nossas vidas!


Deixaram órfãos, não só os filhos, mas os netos, que como eu, não têm mais na terra dos vivos, a quem chamar de vovó. Foi o último laço com as vozes da infância. De forma terrena, pois sabemos que, de onde elas estão, olham por nós e nos benzem.


O céu está em festa desde a chegada delas. Por aqui vamos seguindo...


Os legados de força, amor, colo, lealdade e etc... Seguem conosco. Prometo segurar a mão dos meus pais quando necessário, Carlos e eu tentamos fazer o possível para e ajudá-los a ficarem fortes. Ainda é pungente essa dor, dói nos encontros de família, nas lembranças boas e nos espaços vazios que não podem ser mais ocupados.


Mas, a gente segue, porque tem como consolo todas as histórias fabulosas, tem o amor que sempre estará aqui.


Bença, vozinhas!

Fiquem em paz,

Com amor!


Nana.


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