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  • Beth Bretas

O PODER DAS LINGUAGENS


Era um período de muito stress – ele gerenciava várias obras da UFMG, incluindo o término da reforma do antigo Conservatório de Música, situado na Av. Afonso Pena.


Momentos finais de entrega de obra, com datas agendadas, cerimônia de entrega marcada... Discursos preparados em meio àquele final carregado de imprevistos cortando, como flechas, as demandas do engenheiro responsável.


Nesse período, um dos diretores da obra, com a chave de um apartamento em Guarapari, em mãos, chamou o engenheiro e o intimou a tirar um final de semana com a família - alegando que seria bom para todo mundo, inclusive para os instantes finais da obra.


Ele surpreso, relutante, chegou em casa e pediu opinião... Ela pensou, ponderou, e tranquila respondeu:


- Por que não?!


- Sairemos, então, na sexta-feira, depois do almoço.


Decisão tomada, ela preparou as duas crianças e tudo o mais para aquela viagem inesperada e de última hora.


Na sexta-feira, quando a família entrou na BR.262, um carro os fechou e, por questão de segundos, quase provocou um sério acidente...


Naquele instante de cantar de pneus, onde foi o reflexo do motorista e um freio pontual que os salvou.

E, nesse momento, stress máximo estabelecido, entre os motoristas iniciou uma sessão de troca de ofensas.


- Ignora! Não aceite provocação. Ele pode estar armado! – dizia ela.


...E sabe aquele momento curto que vira eternidade? Cruzou o caminho.


...E sabe aquela providência divina? Intercedeu no caminho.


O outro motorista fez aquele gesto “bacana” com as mãos, desistiu e se distanciou.


Então, ela viu seu esposo nervoso descarregar no acelerador...


Ela olhava para aquela BR comprida, aquele mormaço que vinha do asfalto, olhava para o rosto carrancudo do parceiro e não se atrevia a dizer nada.


Rezava.


Quando se aproximavam da Polícia Rodoviária, um agente saiu da cabine e, LOUCAMENTE, de braços abertos, se posicionou no centro da pista, acenando com os braços, num gesto de “diminua a velocidade”.


Ele foi freando, freando, freando... E parou rente ao policial que se aproximou da janela e disse:


- Boa tarde! Por favor, seus documentos.

E, calmamente, fez todo o processo de vistoria e comentou, ao devolver os documentos:

- Estou vendo que é uma família saindo para descansar. Para aonde vão?


- Para Guarapari.


- Que maravilha! Praia!


E, por instantes, voltou seu olhar para a rodovia e depois, levemente, se debruçando sobre a janela do carro, disse:


- Olha, eu poderia multar o senhor por excesso de velocidade. Quando vi o carro, pensei: lá vem um voador... O senhor sentiu que estava correndo muito?


- Não!


- Não vou te multar. Leve a sua família para a praia, descanse bastante e volte, pois mais gostoso do que ir, é voltar. Boa viagem. Vão com Deus!


E liberou a passagem.


A tranquilidade expressa pelo agente foi tão grande que invadiu o ambiente do carro que, ao retornar para a pista, era outro.

O motorista era outro, ela era outra e as crianças, também, eram outras.


Os semblantes eram leves e felizes – aqueles de quem planeja uma viagem.


Uma viagem que começou com um ato de gentileza de entrega de chaves e se viabilizou com o gesto singular de um agente rodoviário.


Como explicar a presença de um homem que confia na habilidade de um motorista, e no freio de um carro em alta velocidade, e se posiciona na frente?


São momentos em que a vida te apresenta algo muito maior que a busca pela razão.


Momentos em que a vida te apresenta outra linguagem....


“Existe uma coisa que não se aprende na escola...Não estou dizendo que os diplomas não são úteis, mas o mais importante está no interior. É que você é mais do que veio...

A transmissão da palavra acontece com a transmissão do conhecimento sobre a natureza.

A linguagem das árvores, a linguagem dos animais, a linguagem da água, do fogo, da montanha, a linguagem do vento...”

(Filme Entre Nós, Um Segredo – Festival Cinema Negro / BH / 2021)


E a linguagem desse agente que, inesperadamente, abre os braços sobre uma BR, frente a um carro em alta velocidade... E, depois que ele o faz, tudo se transforma.


Há uma linguagem do Criador no Universo!


Alguma coisa que o verbo não contempla!


“Existe algo de inconsciente... algo da linguagem que escapa ao sujeito em sua estrutura e seus efeitos e que há sempre no nível da linguagem alguma coisa que está além da consciência...” - Jacques Lacan

SAWUBONA!



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