• Renata Batista

O DIA QUE NOSSO MUNDO PAROU


Quando sonhamos um filho, idealizamos o " filho perfeito". Pensamos como será lindo, qual será sua profissão, o que vai gostar, enfim, são infinitas possibilidades. Mas o fato é que o filho ideal, provavelmente, não será o filho real.


Tivemos uma gestação tranquila e cheia de devaneios, dois filhos! Será que são meninas, ou meninos? Ou um de cada? Será um preto e um branco?


Em uma consulta de rotina, no final da gestação, foi realizado um ultrassom que mostrou alguns problemas, por isso, teriam que ser retirados naquele dia. Nosso mundo desabou. Estávamos programando um parto natural, e agora, nossas vidas corriam perigo. E nem imaginávamos o que estava por vir.


Quando nasceram, Theo foi o primeiro, trazido direto para meus braços, numa fusão perfeita, como se o mundo parasse de girar. Levando-me ao mais profundo instinto ancestral.


Minutos depois, Arthur passou de relance.


—Como ele está?


—Não está muito bem, precisamos levar para a UTI.


—Ele está identificado?


—Sim! Aqui está!


—Amor, vai com ele...


Piiiiiiiiii.....


Não ouço mais nada. Algumas intercorrências. E algum tempo depois, volto. Estávamos no quarto, Theo estava conosco.


Olho pro lado...


—Cadê o Arthur?


A esposa com olhos inchados, pensei que fosse emoção. Com uma voz forçadamente calma, disse: está na UTI, por não conseguir respirar.


Precisava levantar, precisava vê-lo. O desespero tomava conta de mim, como se, instintivamente, eu soubesse que havia algo muito errado.


Não podia levantar. A esposa com muito amor e cuidado, fez um vídeo para me acalmar.


Um pedacinho de gente, frágil, cheio de fios e tubos, embalado por aqueles sons de hospital...sozinho!


Meu coração rasga ao ver aquela cena.


Preciso ir, tocá-lo, sentir seu cheiro.


Quando, enfim, pude ir, a incubadora dele parecia estar há quilômetros de distância, cada passo era uma eternidade. Nosso encontro foi repleto de emoção e dor.


Percebi que ser mãe não te faz super, mas te torna a mais impotente de todas as criaturas. Como eu queria tirá-lo dali, como queria fazê-lo respirar direito, como eu queria trocar de lugar. Mas nada era possível.


A médica se aproxima.


Ah, você é a outra mãe do Arthur...ele está estável...


Então, veio a notícia:


Quinta será a cirurgia dele.


Piiiiiiiiii.....


Um lapso. Quando me recupero, a esposa diz que já sabia, mas não poderia falar comigo, pois meu estado não era dos melhores e poderia piorar. Por isso, teve que dividir o desespero apenas com nossos familiares.


Como é ruim este sentimento de impotência. O que poderíamos fazer?


Arthur nasceu com 1,500g, com uma má formação no esôfago, que impossibilitava sua alimentação por via oral. Fez a cirurgia de correção, ficou em respiração mecânica por 32 dias, um caminho turbulento e cheio de intercorrências, outras cirurgias e, enfim... saiu do hospital aos 47 dias de vida.


Foi para o lar que estava a sua espera, foi para os braços daquelas que tanto o desejaram.


O primeiro ano foi muito difícil, mais cirurgias e internações, acompanhamento com diversas especialidades médicas, exames e terapias, um marco. Ano de vitórias, conquistas, superação, ressignificação, aprendizado e acima de tudo...AMOR!


Ao findar esse longo e difícil ano, tivemos outra dolorosa notícia.


Ele é portador da Síndrome Silver Russell!


Como? Agora que as coisas estavam começando a melhorar, não acabaram todas aquelas dificuldades?


Não! Estava começando o segundo round de muitos desafios. Ele teria muitas outras dificuldades. A vida não seria mais fácil. Os obstáculos se multiplicariam.


Depois de outro chão que se foi debaixo dos nossos pés, juntamos os cacos, reunimos forças e fomos, rumo ao desconhecido.


Nós, realmente, não sabemos nada quando temos filhos!


Tivemos que viver o luto do filho ideal, e conhecer nosso filho real...


E quanto mais conheço esse cara, mais me apaixono, mais me enlouqueço de amor, mais me orgulho deste filho que me encanta e ensina viver.


Em meio a incertezas e medos, ouvi uma frase que me deu muita força.


Minha irmã Márcia disse: "Deus só dá filhos especiais, para mães especiais"!


Pronto! Foi como colocar nitroglicerina na minha veia e me fez ser a Mãe Xena, a mãe guerreia que iria lutar para que ele pudesse alcançar o seu melhor.


Ainda temos medo, mas não deixamos de lutar por ele, em todas as instâncias e de todos os jeitos. São desafios diários que superamos juntos. Na medida que vai superando um obstáculo, passa para a próxima etapa. Nunca sozinho e com todo amor dessa vida.


Com esta maternidade agitada, constatei que as Mães aprendem mais que ensinam, que é um privilégio ser uma mãe especial de um filho mais que especial e que afinal....TUDO BEM SER DIFERENTE!


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