• Mariana Veloso

NA UMBANDA, EU ENCONTREI MEU LAR!


Minha primeira experiência em um terreiro de Umbanda foi em 1993, na ocasião, era festa de Cosme e Damião e, meu interesse, assim como o dos meus amigos que iam, era ganhar bala. Mal sabia eu, o imenso significado que tudo ali iria representar na minha vida um dia. Chegado o dia da festa; minha amiga passou para me chamar, lembro-me da minha mãe me dizer: - “Filha, essa não é uma festa que você tem costume, vai de coração aberto e, se não gostar, vem embora!”. Quando chegamos ao local, havia uma senhora, muito bem vestida, com uma roupa branca, que estava sentada no meio, e explicou um pouco como tudo seria.


Naquela época, eu não tinha a maturidade necessária para compreender toda a importância que a Umbanda teria na minha vida. Eu tinha 09 anos, e creio que não era o momento de frequentar a religião. Após a festa, fui embora e decidi que não voltaria mais. E, só fui retornar a um terreiro em 2017.


Fui criada na religião católica e segui todos os rituais: Catecismo, Crisma, Consagração de Nossa Senhora, Missa aos domingos, Confissão e etc... Tudo isso, alimentou em mim uma fé imensa, especialmente, em Nossa Senhora Aparecida. Minha mãe conta, que desde muito pequena, eu já rezava para ela e pedia “as coisas”. Bom, tenho algumas imagens aqui em casa e, inclusive, uma tatuagem. De alguma forma, me sinto protegida e guiada por ela.


Depois de certo tempo, comecei a sentir que precisava buscar outros caminhos, pois, algumas respostas não estavam sendo dadas no Catolicismo. Foi quando minha mãe começou a frequentar as reuniões espíritas em Centros Kardecistas, pouco tempo depois de meu avô paterno falecer. Meu irmão era muito novo (04 anos) e afirmava veementemente que o via. Inclusive, começou a assistir filmes de Faroeste que varavam a madrugada, esses eram os prediletos do meu avô. Sem falar de quando nos dizia que era para colocarmos um prato à mais na mesa do almoço, pois ele estava ali e queria almoçar também.


As palestras me faziam muito sentido, senti, que de alguma forma, estava encontrando um caminho que me fazia mais leve e que podia trazer novas formas de pensar e agir. Comecei a me interessar cada vez mais pelo assunto e a ler muitos livros, assistir filmes e palestras sobre. E, até hoje, muita coisa ressoa em mim de forma positiva e tem muita conexão com o que penso e sinto. Um exemplo importante sobre a “vida após a morte”, em minha opinião, são as cartas psicografadas. Muitas respostas nos vieram após a morte abrupta da minha prima em 2005, vítima de um acidente de carro. Mas, quero deixar bem claro uma coisa: Essa é uma crença minha e, não tenho a pretensão de inferir nenhum tipo de convicção, foi só para elucidar o assunto.


Mesmo sendo espírita, lia a respeito dos Orixás e ficava fascinada com todo aquele misticismo e força da natureza. Comecei a ficar inquieta, como quem escuta um chamado. Minha mãe descobriu um terreiro aqui em Belo Horizonte, que começamos a ir, cerca de uma vez por mês. Era um espaço simples, mas muito acolhedor. Mas, como era muito longe, não tínhamos tanta facilidade, assim, no acesso. O que acabou impedindo a nossa frequência.


Em Novembro de 2017, uma amiga me indicou uma casa localizada aqui no Padre Eustáquio, de nome Fratelo. Disse que havia ido e adorou os rituais, a palestra e a consulta com os Pretos Velhos. Sugeriu que eu fosse para conhecer o local e sentir a mesma boa energia que ela sentiu. Então, fui.


Quando cheguei, mal cabia em mim. Parecia que tudo ali fazia parte da minha vida, era tipo um reencontro. Quando soou o Atabaque e os rituais foram iniciados, as músicas, a defumação, as palmas... Ficava arrepiada e, ao mesmo tempo, muito emocionada. A energia estava reverberando de forma muito intensa e positiva no meu coração, era de fato um reencontro com a ancestralidade. Foi tudo tão intenso, que entendi, que na experiência vivida em 1993, não era de fato o momento certo para minha compreensão.


Fui até a Umbanda em um momento em que minha vida estava muito fragmentada; buscava uma nova colocação no mercado de trabalho, minha saúde não estava em seu melhor momento, meu emocional muito abalado. Tudo ia um pouco mal. Eu me sentia meio à deriva em muitas situações, parecendo não encontrar um rumo. Sabe quando a gente sente que está perdida dentro de si mesma?! Então, era essa a minha sensação.


Eu sabia que precisava me cuidar e estava na terapia para isso, mas sentia que minha conexão com a espiritualidade precisava ser resgatada. Na minha primeira consulta com o Preto Velho, já escutei que precisava cuidar mais de mim, que minha energia estava densa e alguns banhos para limpeza eram necessários. Segui todas as instruções de coração aberto. Logo em seguida, minha mãe também começou a frequentar a casa e desde então, não paramos mais de ir.


Minhas consultas mais frequentes foram com a vó Maria Conga e o Pai Pedro de Aruanda, aos quais, tenho uma devoção e um amor infinito, se não fossem esses “pretinhos” acho que eu demoraria mais tempo para compreender o tempo das coisas, me perdoar, me amar mais e acima de tudo, aceitar algumas vicissitudes da vida com a humildade necessária e entender que a Fé deve ser mantida, sempre!

Encontrei na Fratelo uma Egrégora onde meu coração fez um lar, sou imensamente grata a Umbanda por me ensinar todos os dias que devo aprender a aprender sobre a vida, sobre o amor ao próximo, respeito, lealdade, solidariedade e todos esses sentimentos nobres que nos tornam mais simples e fraternais.


A umbanda é uma religião monoteísta e afro-brasileira, surgida em 1908, fundada por Zélio Fernandino de Moraes. A palavra Umbanda pertence ao vocabulário Quimbundo (substantivo masculino Língua do grupo banto, falada em Angola), e quer dizer: “A arte de curar”. E, ela baseia-se em três conceitos fundamentais: Luz, Caridade e Amor. “A Umbanda é paz e amor”! Essa é a maior verdade que há!


As reuniões, as festas, os Rituais... Tudo traz em mim a sensação de paz, aconchego e encontro com o Sagrado. Percebo que, de dois anos para cá, amadureci imensamente. Essa é, inclusive, uma afirmação dos meus amigos mais próximos. Forças que me engrandecem e me tornam uma pessoa melhor, para mim e para os que me cercam. Tudo isso influencia diretamente nas minhas relações interpessoais com meus familiares e amigos.


Eu me agradeço por me permitir resgatar valores que estavam adormecidos, por me permitir o autoperdão, o amor próprio, a reflexão, e tudo mais que advém do autoconhecimento e autocuidado. Por perceber meu olhar mais acolhedor, amoroso e não julgativo com o outro. Hoje em dia, eu pondero e estou mais prudente em relação ao que não é meu. Resultado disso, é minha evolução profissional no consultório.


Eu me agradeço também, por aceitar e compreender, que a cura não é linear, é um processo cheio de altos e baixos e que é natural achar que voltamos lá pro início, mas é necessário compreender e respeitar os meus processos, o meu tempo, e todo o esforço que faço para dar o melhor que posso.


Sei que a sensação que dá com a leitura do texto é de que eu fui “salva”. Bom, de alguma forma, isso faz sentido. E me soa de forma bem positiva, minha vida mudou de forma significativa. A isso, eu agradeço a espiritualidade, por me acolher e mostrar que outros caminhos são possíveis, basta só, estarmos de coração aberto e dispostos a mudar. Que o caminho da dor, desamparo e todos esses sentimentos que nos doem, deixam feridas e põem para baixo, são possíveis, sim, de serem superados. A gente renasce e fica mais forte, como uma metamorfose.


Gratidão a TODOS os membros da Fratelo, essa casa acolhedora, amorosa, grandiosa, presente, íntegra e que é um ponto de luz localizado em um dos bairros mais tradicionais de BH. Obrigada pelo carinho comigo e com minha mãe. Gratidão é a palavra que exprime nosso sentimento. E amor é o que temos aqui no coração.


Em abril deste ano, escrevi um poema que ressalta um pouco do meu sentimento;


A umbanda me ensinou o que é o amor

Foi quando o Preto velho me disse assim:

Fia se é amor, não precisa doer, o amor de verdade

está dentro de você. Tudo nessa vida vem para você aprender...

vai doer, mas vai passar. E essa fia vai desabrochar...

O que for pra ser será.

Agradeça em oração ao nosso pai Oxalá.

Peça mamãe Oxum amor pro seu coração.

A força de Ogum vai te guiar.

Pra conquistar os seus sonhos, você vai batalhar.

Acredite! Você vai realizar.

A sabedoria de Xangô vai te acompanhar.

Vai na coragem fia. Seus passos eu vou iluminar..

Mamãe Yemanjá vai te guardar...

Essa fia vai entender, que cada um de nós tem uma missão

E que é uma virtude, ter um bom coração.

E o Preto vai estar sempre aqui. Orando pra essa fia seguir...

Os passos que ela sonhou..

Chama seu Velho sempre que quiser.

Os seus pensamentos eu vou escutar.

Esse Preto te ama pode acreditar!

Mariana Veloso Leite – 10/04/2020.


Viva os Baianos, os Boiadeiros, os Caboclos, os Erês, os Exus, os Malandros, os Marinheiros, as Pombas Giras, os Pretos Velhos, os Orixás... Viva a minha amada Umbada!


“Não mexe com ela. Ela é do dendê.

Ela é de Saravá, de Laroyê e de

Fé em todos os orixás.”

Que tão logo possamos retornar as reuniões.

Saudades;

Com amor,


Se esse texto tocou o seu coração e, se você, assim como eu, ama essa religião afro-brasileira. Deixa um recadinho aqui, que vou ter muito prazer em responder você. Um abraço fraterno.

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