• Renata Batista

NÃO NASCEM HOMENS, TORNAM-SE!


Acredito que muitas pessoas devem ter dúvida sobre como um casal de mulheres educará um homem, no nosso caso, dois! Os conservadores questionam insensatamente (baseado em nada) que, se uma pessoa não tem a presença de um pai, se torna um adulto desajustado.

Educamos semelhantemente às milhares de mulheres que criam seus filhos sem os pais.

Teremos dificuldades nesta caminhada, pois educar é tarefa árdua, e educar homens é ainda mais desafiador.

Nossa sociedade estimula o estereótipo masculino viril que legitima a posição dominante dos homens e a consequente subordinação das mulheres. E, ser criado por duas mães não machistas, já colocam eles numa posição diferente, sem a pressão para mostrar a virilidade ou de não expressar emoções.

O padrão de macho que muitos homens ainda incorporam, não cabe mais nesse tempo. Precisamos repensar esta masculinidade. Daremos todo suporte aos nossos filhos, para que tenham uma educação desconstruída e crítica.

Não sabemos se os homens que irão se tornar serão, ao menos, próximos do que ensinamos. Chega a ser fé, um trabalho de formiga. Se tratarem uma mulher com respeito e igualdade (sem objetificar), entenderem e aplicarem o conceito de consentimento, se tiverem empatia, compreensão sobre as peculiaridades da vida de uma mulher e apoiarem-nas, então, teremos contribuído para a formação deles e, consequentemente, contribuído para o bem estar das mulheres que estarão a sua volta.

Ainda causa estranheza o fato de eu dizer que não ensinamos nossos filhos a abrirem porta para uma mulher ou pagar a conta do restaurante. Situações que, grande parte das mulheres, entendem como sendo o papel de um homem. No nosso entendimento, ser homem é muito mais que isso. E, o que a mulher precisa é de respeito e amor. Se eles entenderem de fato isso, a gentileza se torna natural e não condição para conquista.

Em nossa casa, a educação não é sexista, não existem brinquedos de menina ou de menino, porque acreditamos que, se um brinquedo precisa das partes íntimas para ser utilizado, não é brinquedo para crianças.

A educação também acontece no brincar. Eles têm acesso a muitas informações: Cozinham com panelas e fogão, jogam bola, andam de bicicleta, brincam com carrinhos, blocos de montar, bola, vídeo game, bonecos e bonecas e acabam por escolher suas brincadeiras favoritas no leque de oportunidades que oferecemos.

O brincar tem uma função social importantíssima. Ensinamos conteúdos nas brincadeiras. Esta forma lúdica de aprendizado pode ser uma grande ferramenta para desconstruir padrões que não queremos que se repitam na educação de nossos filhos.

Muitos pais tem medo do filho brincar de boneca, porque acreditam que irá influencia-lo. Bom, tenho uma notícia pra você: vai mesmo!

No passado, a boneca era o brinquedo exclusivo de meninas e existia um motivo para isso: Preparar a mulher para o destino da maternidade, como se todas, obrigatoriamente, tivessem de serem mães. Mas, a boneca é um brinquedo importante, é a representação da figura humana frágil. Com ela, a criança brinca de CUIDAR, aprende alimentar, vestir, trocar fraudas, dar banho, colocar para dormir, acalmar, entender as necessidades e ajudar. Embora, estas sejam atitudes, comumente, de uma mãe, a criança aprende. E, mesmo que não tenha filhos, terá empatia.

Tão importante quanto brincadeiras ao ar livre, do corpo em movimento, da exploração, da imaginação, da estratégia, o cuidar também ensina preceitos para a vida, e serve para todas as crianças, inclusive os meninos.

Em nossa sociedade, não é comum ver um homem que cuida. Temos como modelos, o homem que bebe sua cerveja enquanto assiste ao campeonato brasileiro, vestindo a camisa do time e gritando pela janela. Temos aquele que trabalha muito, preocupado com a vida financeira de todos, e quando chega em casa, quer tirar os sapatos e se esticar no sofá. Temos o que não faz nenhuma atividade da casa, pois acredita ser papel da mulher. Temos, ainda, os pais que não dispensam cuidados com os filhos, não se preocupam com seu desenvolvimento, nem buscam soluções, como marcar um pediatra, ensinar uma lição, cortar uma unha, perceber que a frauda está suja, levantar e trocar, olhar para o(a) filho(a) de forma global, preocupar-se com como ele se alimenta e se precisa de alguma intervenção. Isso é cuidar! Não se restringe em ser, apenas, financeiramente provedor.

Já parou para pensar em porque existe a expressão "Pai Presente"?

Acredito que apenas “pai” deveria ser suficiente, mas esta expressão foi criada para separar o Pai qualquer, do Pai que realmente é Pai.

E, não só a questão da paternidade está ligada à maneira como este homem vê sua masculinidade, mas, o número exorbitante e inaceitável de abusos sexuais, atentados violentos ao pudor, de estupros, de importunação sexual, todos perpetrados, em sua esmagadora maioria, por homens. Do crescente número de mulheres agredidas e mortas por seus companheiros. Algo nos sinaliza que esta masculinidade tóxica está prejudicando muito a vida dos homens, e, sobretudo, a vida das mulheres. É urgente a necessidade de uma mudança.

Os padrões de masculinidade estão sendo reformados. Acredito que qualquer homem pode questionar o prejuízo causado pela masculinidade nociva, entretanto, se provocarmos uma mudança na infância, este homem terá menos dificuldades em se adequar, terá menos elementos a corrigir e mais a aprender.

Notamos a fragilidade desta masculinidade tóxica diariamente demonstrada com uma agressividade excessiva e sentimento de posse, onde este homem se vê sempre em posição de dono. Quando um homem quer ofender outro, chama de viado ou maria. Um chamamento que está relacionado à mulher e ao feminino, o que no imaginário deles é ofensa, pois acreditam que a mulher é mesmo inferior. Afinal, quando nos chamam de algo que admiramos, ficamos lisonjeados, mas se nos chamam de algo que menosprezamos, a recepção é bem diferente, se transforma, imediatamente, em ofensa.

O sol nasce pela manhã. Se este menino ouvir que “tudo bem sentir medo” no lugar de “você tem que ser corajoso”, que “tudo bem chorar” no lugar de “homem não chora”, que “tudo bem não gostar de tudo que é tipicamente masculino”, porque isso não o faz menos homem, a possibilidade de ele ser um homem diferente será muito maior, sem cobranças desnecessárias, deixa-lo sentir, assim como nós sentimos, de forma livre e sem críticas. Se proporcionarmos um estado onde ele não se importará com críticas, porque sabe quem é, e não precisará provar isso o tempo todo, acredito que teremos uma geração de homens diferentes do que vemos nos noticiários e nas estatísticas.

Em nossa casa, nossos meninos têm espaço para expressar seus sentimentos. Quando ouço um dizer para o outro: este é meu filho e esta é minha filha e cuidar da boneca com o mesmo amor que nós cuidamos deles, percebo que estamos no caminho certo. Não porque manifestam desejo de serem pais, mas a probabilidade de serem homens que cuidam é muito maior.

Criamos meninos que se tornarão homens e temos fé que exercerão uma masculinidade saudável e forte.

Com sensibilidade, amor, empatia e liberdade, eles podem ser desconstruídos o bastante para não se preocuparem em atingir este modelo que tanto prejudica e destrói famílias inteiras.

O amor vence, o amor sempre venceu... Para a tarefa espinhosa de educar, esta é a palavra-chave.




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