Buscar
  • Mariana Veloso

MINHA PRIMA QUERIDA


Desde o início do ano, tenho tentado falar sobre as memórias que guardo no coração e o tanto que elas, além de serem parte de quem sou, me transformam imensamente. Sabemos o quanto estar ao lado de pessoas preciosas para nós, é essencial para a nossa vida. Tenho, pelos meus familiares e amigos, uma gratidão imensa, pois, cada um deles, traz uma contribuição generosa que transcende a minha existência, me complementa e me da à certeza de que não estou só.


Nos últimos três anos e meio, percebo minha evolução existencial e um amadurecimento pessoal que me enchem de orgulho e me dão a certeza de que podemos mudar a todo o momento. A vida muda o tempo todo, é impermanente e, nessa sequência, vamos juntos a ela.


Não muito diferente da “licença poética” que tenho seguido, resolvi que no mês de abril, iria falar, ou melhor, escrever sobre a minha prima Gabriela. Não à toa, escolhi esse mês, já que no dia 21 seria seu aniversário. Então, aproveito o ensejo, para fazer uma pequena e singela homenagem do tamanho do amor e da saudade que sinto.


Por isso, esse, apesar de ser um texto cheio de saudade e boas recordações, não tem só essa tristeza que a ausência de quem amamos causa, mas, muita gratidão por partilhar, compartilhar e vivenciar bons e memoráveis momentos.


Gabi foi e sempre será uma prima querida e muito amada, que se foi ainda muito jovem, em 2005 com apenas 21 anos. Uma morte súbita e avassaladora, que deixou uma lacuna de saudade infinita em nossos corações. Mas, ao mesmo tempo, uma satisfação imensa por termos tido a oportunidade de conviver com um ser humano tão lindo.


Gabi sempre foi muito determinada, espontânea, divertida, inteligente, focada... Inspirava muitos a sua volta, mesmo sem saber e, sempre que podia, estava disposta a ajudar quem estivesse precisando. A amizade sempre foi muito importante para ela. Desde muito nova, ela inventava formas de ter o seu próprio dinheiro: Fazia chocolate, lacinho de cabelo, vendia Avon, Natura e outros produtos cosméticos. Era uma empresária juvenil! Tanto, que sua escolha profissional foi a Administração. A qual estava cursando na UFMG na época em que se acidentou. Um curso que foi muito desejado por ela, principalmente, por ser na Federal.


Minha infância e adolescência ao seu lado não poderiam ter sido melhores; muitas descobertas, aventuras, brincadeiras, conversas, amizade, lealdade e amor. Crescemos muito próximas uma à outra e, mesmo quando eu me mudei de cidade, mantivemos contato através de cartas. Atualmente, quando pego as mesmas para ler, vejo o quanto o amor nos unia. Sempre que possível, íamos para a casa uma da outra, dos nossos avós, ou de alguma tia, e varávamos a madrugada a rir, papear. Era melhor ainda quando na companhia das nossas outras primas, Bárbara e Luciana, que mesmo ainda muito novas, também compartilhavam conosco bons momentos. Atualmente, sempre que escutamos a música More than words, do Extreme, boas lembranças acalentam nosso coração e, quem a conhecia bem, sabe o porquê.


Escrevendo esse texto, consigo fechar os olhos e me lembrar de como eram boas essas partilhas. Pegávamos as roupas e os sapatos da nossa avó e desfilávamos pela casa, ou inventávamos qualquer outro tipo de brincadeira. Não tenho em meu coração ou em minha memória nenhuma lembrança desagradável. Claro, que nem tudo são flores e, em um determinado momento, estivemos um pouco distantes. Cada uma esteve em um caminho diferente, a vida estava corrida, mas, nem assim, deixávamos de torcer ou emanar amor.


Quando, no dia 26/12/2005 recebemos a notícia do seu acidente de carro, e do seu estado de saúde, foi como se o mundo tivesse parado. Lembro-me de que custei a acreditar que poderia ser possível, afinal de contas, poucas horas antes havia sido o Natal e há muitos anos não passávamos a família junta como foi, pensando racionalmente, parece até que ela estava mesmo se despedindo. Há muitos anos não tirávamos foto e, por coincidência, tiramos uma na sacada da casa da vovó, onde todas as netas estavam. Exceto Camila, que ainda era muito novinha e estava dormindo.


Infelizmente, a gravidade do acidente não permitiu que ela permanecesse entre nós. Foi a perda mais difícil que tive, uma menina tão jovem com tanta vida pela frente... Já sonhei com ela inúmeras vezes, algumas dessas, inclusive, ouvia a sua voz de uma forma tão nítida que só dizia pra ela: “deixa eu ficar aqui mais um pouco e matar a saudade que estou de você. Tanta coisa aconteceu depois que você se foi... algumas vezes, eu falo sozinha como se estivesse falando com ela, já em outras, compro um vaso de violeta e elevo meus pensamentos para que cheguem até ela de alguma forma. Na última vez que fiz isso, o vaso durou uns dois anos. Morreu, porque mudamos de casa e não se adaptou.


Consegui elaborar e falar sobre a minha dor de formas bem objetivas, fiz a minha monografia sobre a sua partida e, assim como está sendo com esse texto, chorei na apresentação. Se pararmos para pensar, quando uma mãe perde um filho a dor é tão grande que nem nome tem. Quando perdemos nossos pais ficamos órfãos, quando perdemos nosso companheiro ficamos viúvos. Essas nomenclaturas são quase que um status social. Mas, uma mãe, quando perde o filho é a “dor sem nome”. Vai com ele o jeito de rir, de abraçar, de pedir a benção, o cheiro, o quarto bagunçado, os sonhos, projetos, planos. Tem coisas que acontecem que a gente realmente não explica. A vida vai fazendo a gente compreender de uma maneira, ou outra, que “Deus sabe o que faz”.

Foi uma honra imensa e uma alegria compartilhada ter tido a oportunidade de conviver com você minha prima querida, fico feliz em saber que está bem (minha tia recebeu algumas cartas psicografadas dela). Feliz em saber que nossa vozinha Helenita está aí contigo. Rubem Alves tem uma frase que é mais ou menos assim: “Se alguém que você ama muito morre e você não sofre, existe algo de errado com você”.


Acredito que a vida continua após a morte e que ela está de alguma forma me guiando, seja através da minha intuição ou daquele acalento gostoso que sinto no coração sempre que vem à memoria alguma boa lembrança da nossa convivência. Ficam as recordações, as lembranças, o legado que ninguém tira de nós. Como dizia Renato Russo: “É tão estranho, os bons morrem jovens. Assim parece ser quando me lembro de você que acabou indo embora, cedo demais..”


Gratidão, Gabi querida. Por tudo, por tanto! Te amo!

Até um dia...

Ps: Quando eu chegar aí quero aquele chocolate que só a gente sabia fazer.

Com amor,

Nana.

Dedico esse texto com todo meu amor e carinho para: Tia Cláudia, Fred e Pedro.




Posts Relacionados

Ver tudo

REPARA-TE

NOSSA VOZ