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  • Beth Bretas

ISO(LAR)


Foi o momento em que eu e meu filho tivemos que acreditar nas medidas para conter o contágio COVID-19, literalmente.

Porque depois de um ano de pandemia, sem previsão de melhoria, pela primeira vez, nos confessamos estressados, desanimados e arriscamos...

Exatamente, no momento em que as medidas restritivas foram reforçadas, o sistema de saúde colapsou.

E tudo começou numa manhã de domingo ensolarado, à mesa do café, ao fazer um convite para meu filho:

- Vamos juntar o útil ao agradável e cuidar do jardim? Sair deste desânimo, exercitar, receber vitamina solar...

- Vamos!

Preparamos as ferramentas, colocamos música e, animadamente, começamos a jardinar...

Uns 40min depois:

- Mãe, olha a minha mão! Não senti a picada nem vi qual foi o inseto.

E olhei para aquela mão direita com o dedo mínimo vermelho e inchado.

Tiramos fotos e pedimos orientação para a minha sobrinha médica e, enquanto aguardávamos o retorno:

- Filho, vá até a Araújo e compre uma medicação para picada de inseto, a nossa está vencida, se possível, converse com o farmacêutico.

Ele foi, teve um atendimento virtual. Comprou a medicação indicada e veio embora.

Recebi e enviei para ele o retorno da minha sobrinha:

- Tia, se ele não sentir dormência, não inchar muito, nem ficar vermelhão, é só usar uma pomada...

Ao chegar:

- Mãe, acho que está acontecendo o que não deveria acontecer! Olha meu corpo!

Quanto tirou a camiseta... A vermelhidão se espalhava pelo pescoço, a testa... A mão estava extremamente vermelha e inchada.

- Pode ir para o hospital, AGORA!

E ele foi sozinho... E, então, mergulhei num período de agonia que durou umas cinco horas.

No hospital da Unimed, da chegada até o atendimento, passaram-se três horas. Nesse intervalo, íamos conversando:

- Filho, está demorando... Procure por um funcionário, explique seu caso, mostre a reação do seu corpo...

E, foi então, que trocaram a pulseira dele e, uns 60 min depois, foi atendido.

- Vão me aplicar duas injeções e ficarei uma hora em observação.

Enquanto ele aguardava, eu suspirava arrependimento...

A medicação fez efeito, ele retornou, seu corpo estava normal, só a mão havia triplicado de tamanho e permanecia muito vermelha.

E olhando para aquela mão, pensei:

É inacreditável a potência das coisas que se encontram invisíveis!

Agradeci muito, por ele ter retornado sem consequências maiores e passei a olhar o jardim de forma mais atenta - com olhar de quem procura evitar o perigo.

E essa foi a primeira parte que se encerra para começar a segunda:

- Mãe, aconteceu o que não poderia acontecer, não só fui parar no hospital, como fiquei muito tempo exposto.

- Sim! Nos colocamos em risco máximo!

- Então, agora, nos isolaremos aqui dentro de casa. Circularemos de máscara, vamos separar alimentação, separar utensílios, separar os banheiros...Vamos dividir a casa ao meio. Um não frequentará o ambiente do outro...

Teremos somente a cozinha como ambiente comum, quando um estiver, o outro não entra.

Assim combinado, cúmplices, permanecemos isolados durante 26 dias.

Quatorze dias é o recomendado, mas por excesso de cuidado, meu filho pediu mais dias. E eu, ao pensar que qualquer coisa que me acontecesse, dentro desse período, meu filho se culparia eternamente, aceitei seu pedido.

A arquitetura da nossa casa nos permitiu cumprir o combinado.

O quarto suíte possui uma parede de vidro que corre e permiti circulação externa, sem passar pelo interior da casa... Meu filho se instalou.

E eu dentro de um quarto confortável e tecnológico, o quarto da minha filha, permaneci esses dias de confinamento familiar.

Nesse quarto descobri que o mundo continuava grande. O mundo continuava acontecendo e me engolindo, em redes.

“A tecnologia tornou cada indivíduo um canal em potencial.” - Juliano Kimura

Durante o meu confinamento em quarto, recebi novos convites - convites que me jogavam para o mundo: fiz lives, gravei vídeos...

Estive em telas e ninguém viu nem percebeu meu limite.

Continuei assistindo às lives do blog Bendita Existência e participei de todas as reuniões semanais sobre um projeto literário que desenvolvo com uma amiga.

Escrevi muito e li bastante a nova literatura que chegou para libertar conceitos e destruir rótulos – a incrível literatura das mulheres negras que têm muito para nos ensinar, acreditem!

Assisti às minhas séries coreanas, meus doramas, e assisti ao filme O Dilema Das Redes...

Escutar de alguém que faz parte da criação das redes sociais, nos dizer que não libera redes sociais para os próprios filhos, antes da adolescência... Foi bizarro, como muita coisa que se revelou, nessa experiência.

O mundo não parou de circular na vida, nem deixou de entrar no quarto...


“Só depois que a tecnologia inventou o telefone, o telégrafo, a televisão, a internet, foi que se descobriu que o problema de comunicação mais sério era o de perto.”

Millôr Fernandes


E o que se fez concreto, nessa experiência, foi validar o processo de medidas restritivas adotadas para impedir contágio. O que se fez concreto foi a responsabilidade e o cuidado e a parceria com o meu filho. O que se fez concreto foi acreditarmos que sim, se evita contágio, com isolamento, máscara e gel.

A vida não é perigosa só em tempo de pandemia. A vida sempre foi um eterno risco. Há quem ataque por maldade e há quem ataque para defender território - por puro instinto de sobrevivência – como os insetos.

Há quem dispute território e destrua o que tiver que destruir para conquistar poder.

E independente das razões do agressor, para o agredido, o ataque pode ser letal e não importa qual seja o tipo de agressor: pequeno/grande, forte/fraco, veloz/lento...

Não subestime seu agressor!

E faz diferença, favorece o adversário, a ignorância e a visibilidade - não vimos qual foi o inseto, como não vemos o coronavírus.

No campo de batalha, quem enxerga primeiro, se prepara, e ataca primeiro.

E lutar contra um inimigo invisível pode ser tão letal quanto lutar com a insensibilidade, o escárnio, a irresponsabilidade de homens que acreditam que podem fazer o que quiserem, pois não se responsabilizam pelos espaços sociais.

O que se fez concreto vai muito além do pouco que registro... Pois perpassa por aqui muita coisa sobre Racismo Estrutural.


“Se só registramos, até agora, 500 mil mortes é porque o SUS existe! Se ele não existisse o número seria muito maior!”

(Valéria Neves - Ativista do Movimento Negro, escritora, poetisa e roteirista)


Hoje, sem discurso de meritocracia, entendo como foi possível, eu e meu filho sairmos ilesos dos nossos quartos cheios de privilégio.


“A tecnologia vai reinventar o negócio, mas as relações humanas continuarão a ser a chave para o sucesso.” - Stephen Covey


Encerro meu texto, que inclui sentimento de lamento aos milhares de vítimas fatais, e sentimento de perdão para a classe desprivilegiada - que não sobreviveram a um ataque de vírus fortalecido por ações humanas e governamentais, respaldadas em discurso capitalista: de mais valia, de menos valia, onde vidas não importam.

“Se antes de cada ato nosso nos puséssemos prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar.

Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo... por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão...”

Ensaio Sobre a Cegueira - José Saramago

CONFINASTÊ!





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