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  • Beth Bretas

FELICIDADE


...Então a vida nos ensina que felicidade não é um estado permanente – são momentos carregados de êxtases, acontecendo ao longo da nossa existência.


E enquanto vamos aprendendo, vamos também validando nosso eterno processo de impermanência.


Morava em Jaguara – divisa de Minas com São Paulo – na Usina Hidrelétrica da CEMIG - numa casa, onde havia uma garagem com porta.


Meu pai nunca aprendeu a dirigir, onde se conclui que a família nunca teve carro. Mas tivemos motorista e carro disponível – sempre que meu pai planejava um passeio com a família – nove filhos - era só solicitar e a firma providenciava.


Meu pai foi mesmo um homem poderoso!


A vila onde morávamos era muito bonita e tinha uma estrutura básica: uma escola, um posto de saúde, um clube, um hotel, uma igreja e um centro comercial: supermercado, padaria, farmácia e, uma vez por semana, havia sessão de cinema, no salão do clube.


Eu estava com uns 16 anos, quando uma vizinha perguntou para minha mãe se, por acaso, eu não poderia dar aulas para o garotinho dela, de seis, pois ele desejava muito estudar e não havia pré-escola na vila.


Minha mãe me perguntou e aceitei.


E foi assim que a garagem virou sala de aula e, em questão de pouco tempo, ficou toda colorida para receber alunos, pois a notícia foi se espalhando, a satisfação da primeira mãe se propagando e eu, virando professora.


Era prazeroso receber, na parte da manhã, aqueles catatauzinhos cheios de energia, felizes – sem uniforme, mas com pasta e merendeira, pulando no meu colo e me chamando de tia, como se fossem realmente estudantes de uma pré-escola.

E como tal, não poderia faltar a hora do recreio. As crianças adoravam lanchar no quintal gramado e cheio de árvores, com pintinhos circulando e eles correndo atrás ou grudados na tela do galinheiro, mexendo com o galo e as galinhas.


E naquelas manhãs encantadas, circulando em volta de uma mesa comprida, no meio daquelas dez criaturinhas, minha vida se vestia de fantasia, com crianças colorindo, traçando caminho do peixe até a lagoa, escutando e contando histórias.


Felicidade!


No intervalo das 7h às 11h, eu brincava de ser professora e elas acreditavam, cumpriam com todas as tarefas que eu preparava, e o mais importante, adoravam ir para a escola.


Na hora em que a aula acabava, as mães estavam no portão esperando.


—Tchau, professora! Até amanhã!


Havia uma família de alemães na vila e a filha deles, uma ruivinha de rostinho pintado, era minha aluna. Quando não tinha aula, por motivo de feriado, a mãe batia na minha porta, pedia desculpas, e a levava assim mesmo, pois a garotinha não aceitava não ter aula, e chorava muito.


Dessa garotinha recebi o elogio mais encantador e inesquecível da minha vida!


Num desses dias sem aula, ela chegou e me encontrou desarrumada, com lenço e bob na cabeça...


E com os olhinhos brilhando, me disse:


—Você é tão linda! Tão linda! Que até desarrumada, você continua linda.


Como esquecer algo tão singelo, tão fiel e inocente!


Felicidade!


No Dia dos Professores, as mães enviaram presentes – até hoje tenho um copo de cristal gravado FELICIDADES – ganhei do garotinho que queria estudar, aquele que seria, no futuro, considerado o meu primeiro aluno.


Inexplicavelmente, esse copo me acompanha por mais de 45 anos. É um troféu! Um talismã... Um dia ainda vou colocá-lo num quadro.



“Todos têm momentos mágicos que podem ser vividos em janeiro, junho, julho ou em um doce novembro. Independente de datas eles surgirão e se estivermos despertos os guardaremos, feito tesouros, para todo o sempre!” - Lígia Guerra

Foram momentos em que as palavras não podem traduzir meus sentimentos - uma linha eternamente registrada no meu tempo.


Durou apenas um ano, porque as mães haviam reivindicado uma pré-escola e foram atendidas. Houve festa de despedida e muito agradecimento das mães.


Gostaria que essas mães soubessem o quanto valido, hoje, essa oportunidade que me proporcionou momentos tão felizes, fingindo ser adulta em plena adolescência!


E que foi muito gostoso ter 16 anos com elas na minha vida, confiando na minha capacidade de transformar uma garagem em sala de aula para crianças que chegavam correndo, pulando no meu colo e me chamando de tia, durante uma manhã inteira.


Para todo o sempre, GRATIDÃO para essas mães!



Quantas e quantas vezes, fui feliz na minha vida!

- A filha que nasceu perfeita! - O filho que nasceu perfeito! - Comemorações familiares! - Dia de formatura! - Festas de aniversário! - Noites natalinas! - Reconhecimento profissional! - Meu pai subindo ao pódio! - Mudança para a casa nova! - Viagens inesquecíveis! - O livro que foi publicado! -Dia de encontro com as amigas! - Sucesso de um aluno! - Realização dos filhos! - Inauguração do Memorial JD!

Em todas as vezes em que meu coração acelerou, agradecido por existir...Num eterno abrir e fechar de ciclos.


“Lembro-me do passado, não com melancolia ou saudade, mas com a sabedoria da maturidade que me faz projetar no presente aquilo que, sendo belo, não se perdeu.”

Lya Luft



NAMASTÊ!




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