• Isa Mota

ESCOLA: HISTÓRIAS QUE VALEM A PENA


Filha do Coração

(Dedicado a Rosângela Teles)


“Tudo vale a pena se a alma não é pequena” (Fernando Pessoa)


Parafraseando Diogo Almeida “Quando alguém se torna professor(a), incorpora no DNA, não sai nunca mais”.


Durante a quarentena, tenho procurado não pensar em escola. Mas, é impossível, já está no meu DNA. Então, decidi pensar nas tantas alegrias que vivi nesses quase trinta anos de trabalho. Não precisei pensar muito, existem várias histórias com final feliz na minha carreira.


Contarei uma por vez.


Em 1998, ainda como contratada pela Rede Estadual de Educação, comecei a trabalhar em uma escola na periferia de Belo Horizonte, aliás, quase todas as escolas que lecionei foram em áreas consideradas “de risco”. Crianças e adolescentes em vulnerabilidade social, no bairro Nova Cintra, região Oeste. Foi lá que conheci uma jovem adolescente que transformou minha maneira de pensar e entender o quanto, nos confins dos becos das comunidades, existem crianças e jovens expostos a todos os tipos de violências físicas e emocionais.


Essa garota era o “terror” da escola. Enfrentava tudo e todos. Não usava o uniforme. De pés descalços, “toca ninja” e camisa do Cruzeiro (seu time do coração), jogava futebol com os garotos de todas as turmas. Quase não aparecia em sala de aula, sua sala era a quadra da escola. Todos avisavam aos professores para que ficassem longe dela, pois não respeitava as regras e ninguém. Fazia o que queria e bem entendia, e muitas vezes, era agressiva.


Numa certa manhã, estava dando minha aula, os alunos atentos às explicações, quando, de repente, entra a dita aluna. Tita era seu apelido. Interrompe a aula, cumprimenta um a um dos alunos com um toque de punhos fechados, só depois se volta para mim e diz: Essa professora sem cabelo é muito folgada.


Respirei fundo, andei até a porta, e pedi delicadamente que se retirasse.


Após esse dia, começaram as provocações. Ela esbarrava em mim pelos corredores, chegava à porta da sala, mas não se atrevia a entrar. Comecei a observá-la, e perguntar aos meus colegas, pois ela não era minha aluna, como era essa tal Tita na sala deles. E, para meu espanto, me revelaram que a mesma quase não assistia às aulas, mas tirava excelentes notas nas avaliações.


Ela não mais saiu da minha cabeça. Eu precisa fazer algo, precisava entender melhor essa garota. Certa vez, nos cruzamos descendo as escadas que davam acesso à biblioteca. Avistei-a de longe. Fui até ela, não sabia o que dizer, mas precisava fazer contato para tentar saber o que ocorria com essa menina. Cheguei bem próximo, olhei-a nos olhos e disse: ̶ Que camisa bonita! - usava a camisa de sempre do Cruzeiro - Pelo menos você tem algo de bom! Torce para “timaço”. Ela sorriu, balançou a camisa e seguiu. Estava feito o contato, quebrado o gelo.


No outro dia me acenou com um bom dia. Fui me aproximando, uma perguntinha aqui, outra ali, e em pouco tempo, estava me contando suas tristezas e frustrações.


Em um sábado letivo me ofereci para visitar sua casa, aceitou prontamente. Sentiu-se orgulhosa de a professora visitar seu barraco - como ela mesma dizia.


Encontrei uma família, como tantas outras, vários filhos, criados pela mãe abandonada pelo pai, que trabalhava em período integral e as crianças se viravam como podiam.


Criamos um laço de amizade, confiança. Tornei-me confidente.


Passaram –se os dias e a Tita, sumiu da escola por 4 dias. Preocupei-me. O que teria acontecido? Estaria doente?


Findou o horário, fui visitá-la. Encontrei-a numa situação lastimável. Muito inchada e chorando de dor. Disse-me que fazia controle no posto de saúde. Apressei-me em ir até lá, para ver se poderia fazer algo. Fui informada de que a Maria Aparecida (só nesse dia fiquei sabendo seu verdadeiro nome) estava com reumatismo e precisaria de um acompanhamento rigoroso, tomar as injeções nos dias certos, durante 12 meses, uma injeção por mês. A assistente social quis saber se eu poderia tomar conta desse tratamento. Dispus-me prontamente.


Encurtando o assunto. Com minhas conversas e atenção, Tita começou a se arrumar, a usar tênis, pentear os cabelos e a frequentar as aulas normalmente. Parou de bater nos meninos - batia em todos - continuou a jogar bola, pois amava esse esporte.


Dois anos se passaram. Tornei-me diretora da escola e a Tita meu braço direito.


Seguimos a vida juntas, nas alegrias e tristezas. Hoje é casada com filhos (a História do casamento fica para depois), os quais me chamam de vó, pois mãe da mãe e avó!


Mãe. É assim que sempre me chamou e vai continuar para sempre!


Minha filha do coração!

Continua...



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