• Camila Colares

EQUILÍBRIO ENTRE MATERNIDADE E CARREIRA: UM DESAFIO A SER ENFRENTADO


Algo que muitas vezes passa despercebido para a sociedade em geral, é como nossa cultura patriarcal tenta estabelecer uma incompatibilidade entre a maternidade e o mercado de trabalho. Se a mulher ainda não está programando ou não tem pretensão de ter filhos, é possível que viva alheia ao massacre que a mulher-mãe sofre para conciliar esses dois papéis. Se está em idade fértil – sim, esse não é um detalhe que passe despercebido aos empregadores – há grandes chances de ser questionada se possui filhos ou se tem planos recentes de engravidar. E, talvez, por ainda não vivenciar os desafios para equilibrar maternidade e carreira, pode receber o questionamento como algo natural e sem importância.


Não é!


Para avaliar se uma determinada situação é isonômica, justa e aceitável, é importante refletirmos se seria uma situação igualmente enfrentada por qualquer pessoa, independente de seu gênero. Se a resposta for não, significa que a conduta é misógina e precisa ser coibida.


Quantos homens são questionados sobre planos para gerar uma criança ou se já são pais em uma entrevista de emprego? Quantos sentem angústia de informar em seu trabalho que será pai ou vivencia assédio moral a partir do momento em que recebe um exame positivo?


Dificilmente, ouve-se de um homem a preocupação em se reorganizar após o nascimento do bebê, para que consiga dar assistência a esse ser tão indefeso e dependente, e também conseguir ter tempo para se dedicar a suas ambições profissionais.


A licença maternidade é uma vergonha. A paternidade, pior ainda. Vê-se uma mobilização grande em torno do aumento da licença maternidade. No entanto, pouco se fala sobre licença parental, quando um dos genitores, independente do gênero, pode gozar de um período de afastamento remunerado do trabalho para se dedicar aos cuidados com o bebê.


Isso porque, em uma sociedade patriarcal, parece inconcebível que o pai também possa assumir a responsabilidade sobre os cuidados com o bebê recém-nascido. Soa estranho. Até mesmo para as mulheres. Isso porque, ao estar inserida em uma cultura machista, livrar-se desse ranço exige muita reflexão e o desconforto de enfrentar as estruturas pré-existentes.


O Fórum Econômico Mundial elaborou um Relatório Global sobre Desigualdades de Gênero em 2018, em que concluiu que o Brasil é o país com maior desigualdade de gênero da América Latina e, pior, que essa desigualdade vem aumentando a cada ano que passa. E um estudo publicado em 03/2019, da Consultoria Legislativa, aponta a licença parental como uma ferramenta para minimizar a desigualdade de gênero.


A carga mental a que a mulher é submetida, em que comumente é a única responsável pelo planejamento da rotina da casa e decisões relacionadas à organização familiar, também impacta negativamente no equilíbrio entre maternidade e carreira.


É a mulher que normalmente se encarrega de levar a criança à pediatra ou que sabe a dosagem correta da medicação. São as mulheres que são maioria e, muitas vezes, unanimidade, nos eventos relacionados à parentalidade consciente. As mulheres que se preparam para as diversas fases da vida da criança, que avaliam a linha pedagógica das escolas.


Há pais presentes e que dividem a responsabilidade com as mães. Cumprem sua obrigação de pais e não merecem aplausos por isso. E, por serem visivelmente uma minoria ínfima, precisam reforçar o coro das mulheres na luta pela igualdade de gênero. Recusar qualquer tipo de reconhecimento por serem pais e cumprir com a responsabilidade que lhes é cabida.


Enquanto a mulher conduzir sozinha todas as tarefas para o funcionamento organizado de uma família, ela viverá com uma rotina extenuante que a sobrecarrega de maneira tão pesada, que o equilíbrio entre maternidade e carreira parece uma ilusão inatingível.


Um ditado africano muito conhecido diz que “é preciso uma aldeia inteira para cuidar de uma criança.”. Isso porque as demandas para oferecer condições adequadas para o desenvolvimento infantil físico e emocional não é ou não deveria ser provido por apenas uma pessoa, mas pela mãe e o pai, em igualdade de responsabilidades e também por toda a comunidade à qual essa família pertence. Infelizmente, essa consciência de pertencimento e coletividade anda esquecida pela correria da vida moderna.


É preciso reconhecer o direito de a mulher ter aspirações também além de mãe, caso queira. Ter uma carreira sólida, congruente com seus valores e missão de vida, com flexibilidade para desempenhar suas atividades sempre em equilíbrio com os cuidados com a cria deveria ser um objetivo a ser alcançado independente do gênero. Afinal, o equilíbrio entre vida pessoal e profissional é salutar não só para cada pessoa, individualmente, mas para toda a sociedade.


E, se é difícil nos dias de hoje, para as mulheres, é um desafio ainda maior. Por hora, a igualdade de condições no mercado de trabalho e a divisão igualitária de responsabilidades já seriam um avanço em direção ao tão sonhado equilíbrio entre maternidade e carreira.



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