• Layla dos Santos

ENCONTRO COM AILTON KRENAK


Meu encontro com Ailton Krenak se deu no contexto de pandemia. Estava assistindo uma live, e por “um acaso” André Trigueiro, jornalista, o entrevistava. Lembro-me de parar tudo o que fazia para escutar esse homem de fala simples, mas tão profunda. Ailton Krenak nasceu na região do Vale do Rio Doce, um lugar cuja sociobiodiversidade encontra-se profundamente afetada pela atividade do minério, desde 2015. Seu discurso me encabulou. Cheguei a pensar: —Nossa, existe alguém que pensa como eu! Ou melhor, eu, sendo branca e urbana penso como ele.


O Krenak é uma importante liderança indígena, fez história com o protesto da Assembleia Constituinte de 1987. É um dos mais importantes pensadores brasileiros contemporâneos, e escreveu recentemente o livro: Ideias para adiar o fim do mundo.


Na entrevista, Ailton se referia a pandemia como um desequilíbrio do planeta provocado pelo Homem. Esse mesmo homem deslocou-se da noção de integralidade e de pertencimento do todo e se tornou algo dotado de “humanidade”, algo superior a ponto de tratar a natureza como recurso para satisfazer seus desejos e ambições.


De lá pra cá, muita coisa aconteceu. Muita violência chegou com o “Desgoverno”. O desmantelamento de instâncias protetoras da biodiversidade e das comunidades indígenas. O fim da demarcação de terras; o apoio de Bolsonaro a atividades ilegais praticadas em territórios indígenas por garimpeiros e madeireiros. A chegada do Coronavírus nas comunidades, as centenas de mortes. A fragilidade econômica que enfrenta o país e reverbera nas relações de subsistência desses povos; As queimadas que dilaceraram nossos biomas e que são, muitas vezes, atividades criminosas. A decisão, pelo governo, de não apagar os focos de incêndios a tempo. As mortes de animais silvestres. Um Ministro de Meio Ambiente que, a todo custo, tenta flexibilizar resoluções de proteção e abrir caminho para uma boiada ávida e sedenta passar. Posturas de um governo eco e genocida!


Pois, é bem nesse contexto, de muito desânimo e tristeza, de um entregar de pontos, da sensação de fracasso pessoal e coletivo, que Ailton vem novamente falar comigo. Dessa vez, com cheirinho de livro novo. Ganho de presente, o livro: Ideias para adiar o fim do mundo. Sua voz ecoa dentro de mim: “Quando você sentir que o céu está ficando muito baixo, é só empurrá-lo e respirar.” Aceito o desafio. Deve haver uma sabedoria maior nos guiando no meio disso tudo.


Começo a leitura do livro. Krenak vai desenhando como o Homem se tornou algo apartado da natureza e superior a ela. Uma construção histórico-social, que se deu de maneira violenta subjugando os “recursos naturais disponíveis” e os povos originários, tornando-o dotado de poder, mas, em contrapartida, transformando-o em algo plástico, alienado, um mero consumidor, sem brilho, sem subjetividade e gosto por sentir a vida pulsar. Verdadeiro Zumbi! E afirma:


“Eles inventam kits superinteressantes para nos manter nesse local, alienados de tudo e, se possível, tomando muito remédio.”


“Transformamos as pessoas em consumidores, e não em cidadãos. E nossas crianças, desde a mais tenra idade, são ensinadas a serem clientes.” É como se nos enfiassem goela abaixo um modelo de progresso como única receita de bem estar social.


Ainda diz: “Se sobrevivermos, vamos brigar pelos pedaços de planeta que a gente não comeu, e os nossos netos ou tataranetos – ou os netos de nossos tataranetos – vão poder passear para ver como era a Terra no passado.”


Então, nos explica como os indígenas e outros poucos ancestres atuam em outra lógica: “A aldeia Krenak fica na margem esquerda do rio, na direita tem uma serra. Aprendi que aquela serra tem nome, Takukrak, e personalidade. De manhã cedo, de lá do terreiro da aldeia, as pessoas olham para ela e sabem se o dia vai ser bom ou se é melhor ficar quieto...” e “Eu não inventei isso, mas me alimento da resistência continuada desses povos, que guardam a memória profunda da terra, aquilo que Eduardo Galeano chamou de Memória do Fogo.”


Fiquei pensando o que seria essa memória profunda da terra. Esse jeito sensível de ser e atuar no mundo. A busca pela convivência harmônica e respeitosa a todos os seres. Tenho pistas de que a visão indígena é muito sábia e, ao mesmo tempo, humilde, a ponto de saber da existência de um laço energético que nos torna codependentes de uma cadeia infinita de vida no Cosmos. A meu ver, essa visão de mundo se torna algo tão pertinente, integral, vivo, em concordância com a nossa mais alta evolução, que tenho cada vez mais pensado nesse caminho de retorno à terra e aos nossos antepassados como uma saída de emergência do caos que se instaurou na Terra.


Sim, é verdade. Ailton Krenak carregava consigo a memória profunda da terra: “Vi as diferentes manobras que os nossos antepassados fizeram e me alimentei delas, da criatividade e da poesia que inspirou a resistência desses povos.” Afirma uma possível saída para adiar o fim do mundo: poder contar mais histórias. “Já que a natureza está sendo assaltada de uma maneira tão indefensável, vamos, ao menos, ser capazes de manter nossas subjetividades, nossas visões, nossas poéticas sobre a existência.” Só um guerreiro mesmo para ter esperança diante de um cenário tão caótico.


Ao final da leitura, lembrei-me de Manoel de Barros: “Um grande rio atravessa-me doce...” Não é que Ailton Krenak atravessa-me com seu Rio Doce, seu avô Watu? O encontro das águas se faz necessário, mesmo que seja encontro de água poluída, contaminada, morta ao encontro de água salgada de lágrima. Seu livro de linguagem fácil e dócil é de difícil digestão. Fica reverberando, gasta tempo para assentar. Mas histórias importantes hão de ser contadas e ouvidas! Convido todo mundo a ler esse livro. É preciso reunir forças. Adiar o fim do mundo é resistir mais um pouquinho. É praticar cotidianamente o verbo esperançar: esperar na fé de alcançar.


Seguiremos com desejos de muitas histórias! Seguiremos cada um ao seu modo, sendo capaz de enxergar o todo, sendo parte: partícula ínfima diante da grandiosidade que é viver. Ailton, meu irmão espiritual, muito obrigada!



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