• Camila Colares

“AMAMENTAR NÃO É ATO DE AMOR, É ATO DE RESISTÊNCIA!”


Agosto Dourado é o mês de conscientização e incentivo ao aleitamento materno. E eu não poderia escrever sobre outro tema nessa coluna. Vivemos em um país em que a média de aleitamento materno exclusivo é de 54 dias, sendo que a recomendação da Organização Mundial da Saúde é de aleitamento materno exclusivo até 06 meses e de maneira complementar até, pelo menos, dois anos de vida.


São muitos os desencontros de informações que levam o Brasil a ter um índice tão baixo de aleitamento materno exclusivo.


A começar pelo patrocínio dos Congressos de Pediatria por famosas indústrias de leite artificial, o que certamente influencia na produção do conhecimento ali repassado a tantos profissionais, e o bombardeio aos consultórios pediátricos por representantes comerciais, sempre apresentando os novos lançamentos do mercado.


A falta de preparo dos pediatras quanto ao aleitamento materno é também algo que impacta no sucesso da amamentação. Não se discute que, para um atendimento integrado à saúde, deveria ser realizada por equipe multidisciplinar. A falta de conhecimento dos pediatras sobre a fisiologia da amamentação não geraria tantos impactos negativos, caso a mulher na dificuldade quanto à amamentação, fosse encaminhada a uma profissional com competência para identificar a causa e orientar as condutas capazes de conduzir essa mulher ao sucesso na amamentação.


No entanto, ao primeiro sinal de problemas nessa seara, ao invés de o pediatra encaminhar a mulher a uma consultora em aleitamento materno, o que deveria ser a primeira medida a ser tomada, vem a prescrição da fórmula, como se essa fosse uma conduta inofensiva.


Não pretendo atacar a fórmula, que é uma importante aliada na saúde infantil, quando prescrita de maneira adequada. Menos ainda, julgar a mãe que precisou oferecer fórmula à sua criança. O problema não está no produto desenvolvido pela ciência para solucionar o grave problema de desnutrição infantil, quando a amamentação não é possível. A questão é que são raríssimas as causas fisiológicas que impedem a amamentação, podendo-se concluir que o baixo índice de aleitamento materno é por ausência de acompanhamento e orientação adequados.


Outro dia, li essa frase: “amamentar não é um ato de amor, é um ato de resistência”. E ela me tocou profundamente. Fiquei pensando nas inúmeras mulheres que, contra sua vontade inicial, não tiveram sucesso na amamentação e o quanto a elas pode soar opressor ler que amamentar é um ato de amor.


Embora eu já tivesse lido nos grupos maternos o quanto mulheres que não conseguiram amamentar se sentiam incomodadas com relatos divulgados, especialmente na Semana Mundial do Aleitamento Materno (primeira semana do mês de agosto), nunca tinha entendido exatamente a origem desse incômodo, até ler essa frase.


A intensidade do amor de uma mãe não se mede pela forma de alimentar sua cria. Nós não conhecemos as lutas, dores e dedicação de cada história. A amamentação, assim como as várias facetas da maternidade, precisa parar de ser romantizada.


A maioria de nós recebe o bebê nos braços sem saber que amamentar não é algo instintivo. Não é! Pasmem! Amamentar é aprendizado, para mãe e para o bebê. Instintiva é a busca do bebê pelo seio materno. Mas, entre procurar o seio e conseguir se alimentar satisfatoriamente nele, é um processo de aprendizado, muitas vezes longo e doloroso.


Raro é conhecer histórias em que a mulher teve uma amamentação tranquila e fluida desde o início. Mulheres que, assim como eu, nunca tiveram fissuras, mastites, ducto entupido, bebês perdendo peso, chorando incessantemente.


Mas eu sou privilegiada. Tive informação, equipe multidisciplinar, rede de apoio. E, mesmo assim, quase fui induzida à fórmula por ter um filho que tem um biotipo pequeno. Foi muita resistência para não sucumbir à suspeita da pediatra, muito carinhosa e excelente em outros quesitos, de que meu filho não estava amamentando de maneira suficiente e que colocou em risco um processo que estava muito fluido.


É fundamental propagar informação de qualidade. Nós, mulheres, precisamos saber que o início pode ser muito difícil; que é preciso procurar uma profissional adequada para acompanhar o processo em caso de dificuldade; que bebês podem ficar pendurados no seio materno o dia inteiro sem ser sinal de fome; que bicos artificiais (chupetas, mamadeiras e afins) causam um risco real de prejudicar a amamentação, e que há outras formas de oferecer o leite materno quando necessário; que peso, sozinho, não é indicativo de que a amamentação está insatisfatória. Há bebês que, assim como o meu, sempre estarão na curva de baixo da tabela da caderneta de saúde, e está tudo bem.


Nós não vemos mais crianças serem amamentadas com frequência. Temos famílias pequenas, que costumam morar longe, fechados em seus apartamentos e sem compartilhar as dificuldades que vivenciam, exatamente, por acreditar que só acontece dentro das nossas quatro paredes. Não aprendemos mais a amamentar um bebê presenciando outras mulheres amamentando sua cria. Muitas de nós se torna mãe sem nunca ter visto um bebê ser amamentado. Eu não me lembro de ter visto antes de me tornar mãe.


Não é instantâneo, não é instintivo, não é natural. Exige pesquisa por informação de qualidade, equipe capacitada, rede de apoio. E mesmo tendo acesso a tudo isso, pode ser muito difícil. Mas, com o apoio e orientação adequados, as chances são grandes de você conseguir ter sucesso na amamentação.


E se não foi, certamente não foi por falta de amor. Sim, é permitido, no Agosto Dourado, dizer que uma mamadeira pode ser ofertada com o mesmo amor que o seio materno. O que não pode deixar de ser dito, apesar de ser doloroso, é que na maioria das vezes a amamentação seria possível, se essa mulher tivesse sido acompanhada adequadamente. Não é culpa da mulher. Porque o sistema é implacável. E resistir a ele, mesmo com todas as ferramentas disponíveis, é foda!

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