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  • Suellen Mossi

DESABAFO: SOBRE AS DESVENTURAS DO HOME OFFICE


É difícil descrever os tempos em que vivemos. Nunca pensei que poderia passar por algo que será descrito em livros de história, como tempos sombrios de dor e perdas.


Não tem sido fácil separar o pessoal do profissional, já que minha casa foi invadida por uma poltrona que quase não tinha espaço, com o intuito das dores nas costas passarem; o tripé que foi comprado às pressas já que os arranjos eventuais para segurar o celular já não satisfaziam o diário necessário, e o entendimento de que portas fechadas não impedem o barulho das obras do vizinho do apartamento de baixo.


Definir horários, espaços físicos e limitar a família que convive comigo a um espaço menor, tem sido minha grande “aventura” nesse momento de pandemia. Confesso que, mesmo após mais de um ano vivendo dessa forma, ainda há ajustes diários a serem feitos, como o gato que quer miar alto em um atendimento difícil ou o telefone da sala que não pára de tocar, atrapalhando meu entendimento do caso que está à minha frente.


Imagino que muitos que lerão esse texto compartilham dos mesmos sentimentos que aqui descrevo e espero poder, de certa forma, ser um elo para entendermos que não estamos sós. Sim, todos nós estamos passando por momentos conturbados, entender como ajudar aos outros e a si mesmo tem sido um caminho que estou tentando percorrer, mas não tem sido fácil.


O número de pacientes aumentou e com ele, a demanda e disposição mental precisaram aumentar também. Através da minúscula tela do celular, converso com meus pacientes e confesso, por um lado fico feliz por ainda conseguir realmente me conectar a eles, conseguindo estabelecer a transferência necessária para que o cenário (mesmo modificado) aconteça.


Porém, definir a divisa entre o pessoal e o profissional, tem sido o mais penoso desafio a ser percorrido. Invadimos os nossos lares como se fossem escritórios portáteis, esperando que teríamos o mesmo jeito de trabalhar, mas com o tempo, percebemos que diversos limites foram ultrapassados.


Vejo no meu próprio jeito de fazer a clínica: as remarcações de horários aumentaram devido a essas intrusões. Reuniões são marcadas na hora, e dizer não para alguém que sei o quanto está em sofrimento, não me parece viável, mesmo entendendo da lógica inconsciente que isso permeia.


Dito isso, espero que todos possamos repensar o jeito que temos feito nosso trabalho ao longo da pandemia, principalmente para aqueles que ainda continuam em suas casas, pois acabamos por não estabelecer limites necessários para seguirmos com a nossa saúde mental e, até mesmo, a das pessoas que convivem diariamente conosco.


Pedimos paciência para aqueles que amamos, pois isso já vai passar, e logo as coisas voltarão ao normal... Não sei se haverá um “normal” para voltarmos (mas isso é assunto para outro texto), por isso, olhe para como você está fazendo as coisas hoje e se puder, separe seus dias e horários para que tenha momentos com o seu trabalho, sua família e com você mesmo.








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