• Dayanne Carvalho

DAS EXPECTATIVAS E LANCHONETE


Desta vez, compartilho com vocês um texto lindo de uma amiga querida. Sou apaixonada por ele, e sei que vocês também irão amar.


"Ele não era exatamente lindo, mas exercia uma atração quase magnética sobre mim. Talvez pelo All Star velho. Talvez pela camiseta desbotada. Talvez pela música linda dedilhada no violão. Imaginar quem ele era e como seria o som da sua voz foi um exercício de minutos intermináveis. Que foram interrompidos por um "boa noite", respondido com um aceno de cabeça. A voz era rouca. E ele?


Ele era louco!


Enquanto eu imaginava o que dizer pra iniciar uma conversa, que certamente não me levaria pra lugar algum, ele cantou. E sem medo de ser clichê, fiquei encantada! Quem era ele? Como vivia? E o tenso era saber que o Sérgio Chapelin não me daria a resposta hoje no Globo Repórter... Ele tinha um mistério, um sorriso cínico, um ar de quem quer falar muito, mas precisa de um bom motivo pra isso.


E quando eu encontrei um motivo para iniciar o assunto, que no caso, foi desejar um feliz aniversário, o gelo quebrou. E conversamos por horas e horas. A tarde virou noite, que virou dia, e o assunto não acabava. Música, arquitetura, história, Roberto Carlos, japonês e sushi. Eu tinha sono, mas ele tinha muito que falar. E ouvir tudo aquilo, era uma delícia.


Entre as milhares de revelações e sutilezas que foram semeadas, uma me assustou de verdade. Não foi o fato de saber que ele abandonou tudo pra "se encontrar ou se perder de vez" numa cidade nova. Não foi saber que, pra ele, Wander Wildner é rei. Não foi ver a tatuagem da perna dele e nem ouvir que ele não era usuário de nenhuma rede social, pelo simples fato de preferir contato físico e passional. O que mais assustou, foi o fato dele ter comido no Mc Donald's três vezes na vida, apesar dos seus vinte e três anos.


—Uma quando eu era criança e queria o brinquedo. Outra quando minha avó quis ajudar as crianças com câncer e comprou um Big Mac. E outra, com uma guria, por quem eu era apaixonado. Eu não gosto, mas queria que ela ficasse feliz.


E eu, que sou viciada de toda a felicidade disfarçada de porcaria vendida naquela rede, fiquei chocada. Dormi inconformada! Mas antes, ouvi dizer que "Foi uma boa conversa. Você é muito bacana. Boa noite". E depois das 3 horas que dormi, nos vimos novamente. Conversamos. E rimos. E conversamos mais. E quando deu fome e ele me disse pra escolher um lugar pra ir, eu sorri. Achei que ofenderia se falasse MC DONALD'S! Mas não queria perder a piada... Eu não disse, mas ele sim!


—Eu já sei aonde tu quer ir. Vamo lá.


—Não precisa ir por minha causa. Você não gosta, a gente pode ir a outro lugar.


—Mas tu gostas. E eu vou por ti.


E saímos pelas ruas de Boa Viagem, com ele me segurando pelo braço a cada cruzamento, como se quisesse me proteger de todos os perigos, ainda que o maior risco, naquele caso, fosse ser atingida por um motorista distraído. E durante o trajeto, ele se declarou envergonhado, por não saber como agir na lanchonete. E quis saber se teria maionese.


Pediu um Quarteirão, porque o nome é mais fácil. E Coca-Cola grande. Com batata. Comeu com cara de quem preferia um rodízio de sushi, um macarrão, um pacote de Fandangos. Mas não reclamou e nem foi deselegante. Nem por um minuto! E ao terminar, me olhou docemente, com o nariz sujo de catchup e disse:


—Tenho mais um motivo pra não esquecer nunca mais de ti. Agora fui ao Mc Donald's pra ganhar um brinquedo, pra ajudar as crianças, pra agradar uma guria e pra conquistar outra."


Escrito por Josiane Andrade


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