• Camila Colares

CULPA X RESPONSABILIDADE


Nasce uma mãe, nasce uma culpa! Que mãe nunca ouviu – e até mesmo, repetiu – essa frase? Embora seja comum reproduzi-la, é importante refletirmos sobre a carga pesada que ela traz à maternidade.


Ser responsável por uma criança frágil, que depende de nossos cuidados constantes para um desenvolvimento físico e emocional saudável é tarefa árdua mesmo. Especialmente no início da vida, em que o bebê não verbaliza suas necessidades e a forma de comunicação é através do choro, é natural que a mãe fique preocupada e insegura se está fazendo tudo corretamente.


No entanto, repetir que a culpa é parceira da maternidade e dela é indissociável é injusto. Culpa pressupõe que se esteja causando mal a si ou a outra pessoa. No caso da “culpa materna”, expressão cruel, seria a mãe causando mal à sua cria, seja intencionalmente ou não.


Imagina quanto é opressor se preocupar se está agindo corretamente com sua criança e ainda ler e ouvir, constantemente, que é sim culpada, que a culpa é algo inerente à maternidade. O sentimento de culpa atrai para a maternidade uma sensação de insuficiência, de que nunca se está agindo de maneira boa o bastante.


E de onde vem a tal culpa materna? De uma idealização de maternidade que não é real. Acompanhar a vida das pessoas pelas redes sociais dá uma falsa sensação de que os desafios só acontecem com a gente. Só que é preciso ter em mente que as pessoas costumam mostrar sua melhor versão, os momentos especiais. As dificuldades normalmente são mantidas na intimidade.


Todo mundo quer mostrar os primeiros passos, um gesto carinhoso da cria, a primeira fruta que o bebê comeu. Os choros incontroláveis, as birras, as cólicas não são tão atrativas. Até porque, nessas horas, a mãe está dedicada à cria e não aos registros.


É natural que a mãe queira compartilhar com as pessoas um momento em que conseguiu manter a tranquilidade e resolver uma situação complicada. Ela está se sentindo feliz com a conquista. Ninguém quer expor os momentos que perdeu o controle, que gritou, que fez mais birra que a sua própria criança. Está tudo bem.


O problema é acreditar que a vida é só aqueles momentos felizes postados nas redes sociais. Não é. A maternidade pode trazer sim muitos momentos especiais. Pode ter momentos de risos, de leveza, de conquistas. E também tem privação de sono, inseguranças, desafios. Quando os desafios não são ditos e cria-se uma expectativa de maternidade perfeita, a tal da culpa materna fica mais intensa. Afinal, por que o filho da vizinha dorme tão bem? Por que a coleguinha da escola come só comida saudável e orgânica? Por que as outras crianças não fazem birras?


Se todas as outras crianças se enquadram na cartilha de boa mãe que é entregue junto com a chegada do bebê, você deve estar fazendo algo errado. Acalme-se, você é a melhor mãe que sua criança poderia ter. Assim, do jeitinho que você é.


Está tudo bem perder a paciência algumas vezes, não ter todas as refeições balanceadas sempre, permitir que a criança exceda um pouco nas telas. Está tudo bem você não ser perfeita! Mostrar sua humanidade para sua criança, seus acertos e falhas, é também uma grande fonte de aprendizado.


A culpa materna não existe. Essa pressão para que as mães atendam à uma expectativa irreal de uma meta inalcançável é algo construído e injusto.


Com a maternidade – e a paternidade! – vem a responsabilidade, não a culpa. Quando substituímos a culpa pela responsabilidade, as coisas ficam mais equilibradas e justas. Sim, mãe e pai são os adultos na relação com a criança e, por isso, é importante exercer a parentalidade com consciência.


Responsabilidade não é acompanhada de uma meta inatingível a ser perseguida, acompanhada de uma frustração por não se adequar ao que é considerado perfeito. Responsabilidade é ter consciência de que nós precisamos refletir sobre as decisões e escolhas na condução da relação com nossas crianças, assumir as consequências das nossas escolhas, aceitar que falhas vão acontecer e serão parte do aprendizado.


Se optarmos por oferecer apenas alimentos pouco nutritivos, a criança não terá uma relação saudável com a comida. Isso não significa que fazer um macarrão instantâneo em um dia cansativo seja motivo para sofrimento. Claro que o ideal é manter uma relação respeitosa com a criança, mas perder a paciência ou gritar em um momento desafiador dá a oportunidade de reparação e isso modela para a criança como solucionar os conflitos.


É parte de uma parentalidade consciente refletir sobre as decisões que conduzirão as crianças para um desenvolvimento mais pleno e feliz. Esse caminho é diferente para cada família, não há um único caminho, uma resposta certa. Escolha o caminho que faz sentido para você e sua família e ajuste a rota, quando sentir que é necessário, sem culpa!


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