• Dayanne Carvalho

CUIDADO, SILÊNCIO E AMOR


Seus dedos deslizaram sobre seus cabelos jogando-os para trás. Eles voltaram, caíram sobre seus olhos. Deveria ser madrugada, o silêncio era tão pesado que quase poderia ser ouvido. Abriu a torneira e sentiu a água gelada escoar por seus dedos. Por muito tempo, ficou observando seu reflexo no espelho. Seu rosto estava pálido, seus olhos tristes e sua respiração ofegante. Seria a terceira vez, naquela semana, que Lara acordaria no meio da noite preocupada, aquecida pela lembrança contínua de seus planos que viraram pó, da noite para o dia.


Estava exausta, fraca, não conseguia parar de pensar no que faria. Tinha logo de falar com Emanuel. Precisava se desafogar daquele segredo. Mentalmente, ela repassava seu discurso. Não adiantava. Logo ele evaporava. Voltou para o quarto, parou em frente à parede coberta por fotos. Ficou ali, sorrindo em meio a lágrimas, observando aquela juventude com fome de viver, congelada em todas as fotografias. Naquele ano, comemorariam três anos juntos.


Era o típico casal sintonia. Nunca se sabia quando falavam sério. Com palavras fechadas, falavam sobre assuntos banais e riam de coisas importantes. Lara passava a impressão de uma lareira. Emanuel sabia disso, pois, frio e desconforto, ele nunca mais sentiu desde então. O envolvimento dos dois prestava à idealização de um amor em excesso. Um amor entendido, subjetivo, bonito, doce e interessado. Lara sentia-se segura, forte e viva ao lado de Emanuel, que se resumia em espontaneidade e sentimentos muito bem definidos, palpável. Naquele momento, porém, Lara não conseguia lembrar ou colocar na balança nada disto. Era, inquestionavelmente, um desespero fajuto e ingrato que a enlouquecia lentamente. A única certeza que tinha era a que amava Emanuel sem medidas, mas o medo exercia uma ideia de que ele não pudesse lidar bem com a situação.


Emanuel tinha acabado de receber a notícia que havia conseguido a tão sonhada bolsa de estudos na Universidade de Barcelona. Logo, Emanuel percebeu que não conseguiria viver sem o ofertado olhar de ternura de Lara nem se deliciar na essência de cada gargalhada que ela dava. Seus beijos, seu calor, seus carinhos... Não imaginava sua vida sem o acolhimento em forma de beleza e simpatia mais rara que era Lara. Todos esses fatos levaram-no à grande decisão que mudaria o relacionamento dos dois. Ele a convidaria para partir junto a ele. Emanuel fez o convite, com frio na barriga e medo de ouvir um possível não.


—Emanuel, é claro que eu vou.


Aquilo soou como uma perfeita melodia. Emanuel nunca soube explicar o que sentiu quando ouviu essas palavras. Uma inexplicável felicidade.


Lara continuaria o curso de arquitetura na Espanha. Trabalharia em um café, perto da Universidade. Sua vida não poderia estar mais completa. Seus dias não poderiam ser mais felizes.


Na quarta à tarde, não iria ter ninguém em casa. Seriam apenas eles. Ventava bastante. Por duas janelas grandes que proporcionavam uma vista púrpura e esplêndida do céu entre enormes prédios, entrava sorrateiramente um sol confortante que tomava a parede da sala. Lara usava um vestido azul coberto por flores vermelhas e uma fina blusa de frio. Os joelhos, à mostra. Como se vestir para dar a Emanuel a notícia que mudaria tudo? Achou aquele vestido uma boa escolha. Manteria o cabelo solto. Continuaria bagunçado, volumoso e caído sobre os ombros. Necessário não era nem se importar com o nariz vermelho e os olhos inchados. Daria um ar melancólico e dramático à conversa. E ela gostaria que fosse assim, de verdade.


O interfone tocou. Ele subiu. Lara ficou esperando a porta do elevador no final do corredor se abrir. Abriu. Emanuel olhava para o chão, e quando saiu do elevador, seus olhos foram de encontro aos dela. Enviou-lhe um sorriso fechado, meio tenso, e veio em sua direção caminhando com calma. Os cabelos pretos bagunçados faziam com que as pernas de Lara ficassem bambas. Havia passado infinitas tardes de domingo sentindo entre seus dedos aqueles macios cabelos pretos. E o olhar? Olhar vívido de alguém que sonhava, vivia e acreditava.


—Entra.


—Seus olhos estão vermelhos! Andou chorando?


—Sente-se, Emanuel.


Ele sentou.


—Quer alguma coisa? Água, suco...


—Pare com essa enrolação. Quero que você conte logo o que está acontecendo.


Lara, com delicadeza e calma, sentou-se ao seu lado. Seu cheiro invadiu as narinas de Emanuel. Era uma carícia sem par sentir o inflar da respiração e absorver aquela fragrância de lavanda.


Ela o encarou com firmeza.


—Estou grávida.


Suas lágrimas começaram a rolar logo em seguida. Suas mãos estavam trêmulas. O olhar dela a condenava: olhar de medo, angústia e inquietude. E, assim, o olhar assustado, surpreso e calado dele encarava o dela. Olhares que poucos segundos depois, se transformaram em um abraço apertado. Ele precisava acalmar o coração assustado de Lara, e o fez. Porque Emanuel era fora da curva mesmo e tinha essa capacidade de, cuidadosamente, dissolver desespero. Naquela tarde, seria assim que encarariam aquilo.


Com cuidado, silêncio e amor.


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