• Camila Colares

COMO VOCÊ OLHA PARA A SUA CRIANÇA?


É fácil rotular uma criança. Ela é impossível, birrenta, agressiva. Ela é boazinha, tímida, apegada. Mas você já pensou no peso que os rótulos trazem para ela? Não somos uma coisa só. A criança também não. O comportamento da criança nos diz algo sobre o que estão vivenciando. Claro que cada pessoa tem um temperamento, tem traços de personalidade que são mais evidentes. Ainda assim, não devemos rotular uma criança. Devemos acolhê-la.


Não existem rótulos bons. Os rótulos engessam a criança em uma caixinha. A criança tem uma grande necessidade de se sentir aceita e importante. Ela quer agradar aos adultos de referência, principalmente a mãe e o pai.


Ao rotularmos uma criança, ao falarmos diante dela que ela é de um jeito ou de outro, ela cria crenças sobre si mesma. Ela não quer nos decepcionar. Então, ela acredita ser aquilo que dizemos a ela. E para atender às nossas expectativas, potencializam a característica que pontuamos.


É interessante. Porque muitas vezes reforçamos aquilo que não nos agrada no comportamento da criança. Depois, nos frustramos por ela agir exatamente da maneira que sempre dizemos a ela que ela é.

O que muitas vezes não percebemos é o que a criança está nos comunicando com o comportamento que ela apresenta. Às vezes, pode apenas ser um comportamento próprio da idade e nós exigimos da criança mais do que ela é capaz de nos oferecer, em razão do seu desenvolvimento ainda em construção.


A parte do cérebro responsável pela razão, pelo controle da impulsividade, finaliza sua formação já na fase adulta, em torno dos 25 anos de idade. E queremos que a criança tenha uma capacidade de auto regulação que nem nós, embora já tenhamos completado nosso desenvolvimento cerebral, somos capazes de alcançar.


Quem nunca perdeu a calma, gritou, ficou agressivo, em situações de estresse? Claro que nós, adultos, temos condições de perceber os gatilhos que nos levam a um estado alterado de comportamento e buscar o autoconhecimento para construir ferramentas para evitar essas explosões. A criança não tem ainda essa capacidade. Precisa da nossa ajuda para encontrar formas de se acalmar e resolver os conflitos que surgem. Para nós, coisas simples e sem importância. Mas, para a criança, algo profundo e intenso. E como ela será conduzida nesses momentos em que apresenta comportamentos inadequados, fará toda a diferença para que, aos poucos, ela consiga encontrar formas mais suaves de lidar com as situações desafiadoras.


Ao vivenciar um conflito, nosso cérebro desativa a sua parte racional – o córtex frontal – e ativa o cérebro reptiliano. A resposta é de ataque ou fuga. Daí, surge o comportamento desafiador, a impulsividade. Se a criança está apresentando comportamentos desafiadores frequentes, se ela não está conseguindo lidar com os desafios com mais tranquilidade, ela precisa de acolhimento e não de julgamento.


Todo comportamento traz uma necessidade por traz. Por isso, é tão importante que nós, adultos, estejamos atentos para não reagir imediatamente, para analisarmos para além daquele comportamento e conseguir atender à necessidade da criança.


Olhar apenas para o comportamento da criança não trará as respostas. É preciso olhar o entorno. Como está a rotina? O tempo de qualidade com a mãe e o pai? Quais situações ela está vivenciando?


Estender esse olhar também para as pessoas que cercam a criança é fundamental. Se há um comportamento desafiador direcionado especificamente a mim, o que isso me diz? Como eu estou? Qual a minha rotina, realidade e desafios?


Porque, muitas vezes, a criança é como um espelho. Está refletindo para você aquilo que você mesma está negligenciando. Ainda que seja por necessidade.


Independente de qual seja o caso específico, é preciso parar, reavaliar, pensar em estratégias para a situação vivida. Nem sempre será fácil. Envolverá esforço, renúncia. Mas a recompensa vem.


A criança não age de maneira desafiadora para nos afrontar ou manipular. Ela é um ser em formação e precisa de nosso apoio para conseguir lidar com os desafios que o ato de se relacionar com o outro, traz. Somos nós, adultos, que precisamos avaliar o contexto com consciência, para encontrarmos soluções respeitosas para ambos.




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