• Beth Bretas

CHÃO EM FLORES


Amanheceu sábado lindo. Muita luz e sol e vento frio. Um dia que, independente de notícias sobre a situação do COVID-19, ele aconteceria maravilhosa e naturalmente.

Havia flores forrando o chão.

Era dia do caminhão de lixo passar. Recolhi, separadamente, como sempre faço, o lixo orgânico e o lixo reciclável, pois na minha rua passa, antes do caminhão, a senhora da garrafa pet, o moço da latinha, a moto do papelão.

Preparei tudo e fui até meu limite de quarentena, o portão. Coloquei as sacolas na calçada, olhei para a rua, olhei para o céu azul, olhei para a esquerda: muita caixa de papelão transbordando doações. Olhei para a direita: muitas sacolas de plástico amarradas por nó que facilmente se desfaz. E na esquina, um sofá velho e rasgado. Tudo esperando pelo caminhão.

Em nenhum extremo, havia embalagem de produto novo - detalhe do momento em que a humanidade se depara com uma força capaz de parar os homens e fazê-los refletir sobre vidas e escolhas.

De repente, lado direito, aparece um balão amarelo. O vento veio trazendo, veio empurrando, veio soprando o balão. Fiquei extasiada e esperei ele passar em frente ao meu portão. Minha casa é quase na esquina. Ele passou por mim e desceu a rua perpendicular.

— Vai balão!

Paralisada permaneci, por instantes, naquela rua de janelas fechadas para um chão bordado em flores.


Rua onde pessoas reciclavam, esvaziavam armários, liberavam quartos, cozinhas, salas, banheiros e memórias - Tudo ali, esperando o caminhão.

Fechei o portão com vontade de ir para o mundo, livre, solta como aquele vento que brincava com balão.

Mas entrei e voltei para debaixo do edredom e o Ep.6 / T.I da maravilhosa série da Netflix: “Dear My Friends” enviou esta linda reflexão como um presente complementar da minha ida ao portão.

Uma vez alguém disse que somos viajantes solitários na estrada da vida. Esta estrada se divide em dois caminhos: um onde você pode refazer seus passos e outro onde nunca poderá voltar atrás.

Em um caminho, você pode voltar atrás, sempre que tiver vontade. Esse caminho pode ser alegre e animador e encher sua vida de esperança, anunciando um novo começo.

No outro caminho, não tem como voltar atrás, porque você já foi longe demais

ou porque o caminho para voltar se fechou.

Eu me pergunto em qual caminho meus avós estão agora? Em qual eu estou?

Podemos voltar atrás ou é melhor parar onde estamos?

A vida não acaba quando você morre”...

Que espetáculo foi abrir o portão!




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