• Ana Reis

BANALIZAÇÃO DO SENTIR


Durante alguns anos, trabalhei como Doula plantonista em uma maternidade. Nos primeiros dias, acordar às cinco da manhã era sofrido, mas, se tornou rotina automática. Com o tempo, eu me sentia como um robô, ou como um gado, no bom sentido da palavra, ao ser inserida no transporte público arrasador.


O ambiente é de adesão, compulsiva e muitas vezes involuntária. O ambiente é pesado, todos se empurram, conduzindo uns aos outros a espaços no transporte, até mesmo, onde você não deseja ir, como naquelas cercas estrategicamente colocadas para conduzir animais. Grande parte dos indivíduos adormece, encosta onde pode, pois o cansaço do dia anterior ainda é exalado pelos poros e a energia constante é de servidão. Como muitos zumbis a caminho do percurso descrito, ou, como diz a sabedoria popular de meu pai: “Um burro quando é treinado e você o solta, ele faz o caminho sozinho para casa e para a labuta”.


O que não se percebe é a inserção e conexão por uma lógica disciplinar claramente demonstrada por uma sociedade, de controle e de ampla vigilância contínua. No filme “Tempos modernos”, encenado por Charles Chaplin, (se você ainda não assistiu, é uma ótima indicação, pois ele nos faz pensar sobre o cotidiano), abordam-se os modelos de produção industrial e a divisão do trabalho por meio da repetição, padronização e limitação. Deixando clara a alienação física e ideológica de cada indivíduo inserido nesse sistema. Mas, como não nos damos conta de tudo isso?


No meu caso, os anos se passaram, e eu passei a sentir determinada fobia desses espaços, as aglomerações me geravam falta de ar e muita angústia. O que aconteceu em paralelo às limitações da qualidade do meu trabalho. Era uma intensa ausência de sentir... Mas, como ressignificá-la?


Passei a fazer coisas diferentes, organizava várias playlist’s de músicas diversificadas que me davam outra energia para estar ali no transporte e no trabalho. Uma das certezas mais intensas é a de que a energia que se produz se expande. Às vezes, cantava uma música, baixinho, e logo se via alguém cantarolando a mesma música baixinho também. A música tem esse poder, de movimentar, dar leveza, nos levar para outros lugares, vivenciar algum momento bom e sorrir!


Fui impulsionada a pensar todo contexto social, ter uma visão mais crítica dos processos de análise do cotidiano. Sim, esse cotidiano que nos dá uma nova ótica sobre a construção da identidade, pertencimento a grupos e manipulação de massas. Só nos damos conta quando conseguimos observar e ler grandes pensadores, como Edgar Morin, que apresenta a cegueira do conhecimento ao absorvermos um raciocínio que já vem pronto, como nos meios de comunicação, sendo necessário romper com os padrões que nos mantém presos e arraigados a esse modo de sobrevivência.


A banalidade faz com que os indivíduos se tornem envolvidos em representações, grupos, instituições, reduzidos a números de CPF, identidade, passaporte, códigos em um processo, senhas em demandas institucionais. Por isso, meu objetivo hoje é fazer você refletir e pensar sobre quais mudanças são possíveis no seu atual contexto. Romper com esse adormecimento, pois é amarga a sensação de manipulação dos corpos e mentes. Vamos refletir sobre a manipulação externa que te move, e quais são os atos conscientes praticados por você em busca do seu sentir?


Comente sobre o texto, suas percepções, sentimentos e sentidos aguçados pela leitura e indique para que os amigos possam refletir sobre tudo que nos cerca e muitas vezes não nos damos conta.




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