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  • Mariana Veloso

ANCESTRALIDADE


Iniciar o ano de 2021 com um texto expressando todo o amor e gratidão que tenho pelos meus ancestrais é uma dádiva.


Em setembro de 2020, escrevi sobre as minhas avós. Um texto que me trouxe imensas recordações de amor, cuidado, acolhimento, afeto e muitos outros sentimentos bons e puros que aprendi com essas duas rainhas, que deixaram um legado de amor tão grande que nem cabe no peito.


Hoje, decidi escrever sobre a ancestralidade e todo esse poder, que uma simples palavra representa em nossas vidas. Segundo o dicionário, “Ancestralidade é um substantivo feminino, que sua etimologia quer dizer: ancestral + (i)dade. Particularidade ou estado do que é ancestral (que se refere aos antepassados).”

Eu sou imensamente grata pelas minhas avós, meus avôs e meus pais que trilharam um caminho, muitas vezes, tortuoso e difícil, mas que me ensinaram e trouxeram muitos ensinamentos a todos os seus. Valores, que nos compõe e, possivelmente, nos tornam uma pessoa melhor.

Meus avôs, paterno e materno, se foram ainda muito cedo. Eu tinha 10 e 14 anos quando experienciei a dor da perda, e a lacuna expressa pela saudade que a morte deixa. Rubem Alves falava muito bem sobre a morte, sabemos que ela faz parte da vida. Mas, a verdade, é que não estamos preparados para a morte de quem amamos.

Das lembranças que tenho guardadas, lembro de Vovô Geraldo de pijama em casa, sempre solícito e com um livrinho de Faroeste na mão. Os netos pintavam e rolavam e, ele ali, tão presente na leitura, que nem se dava conta que a cortina estava sendo rabiscada, que a TV já estava indo pro chão, até costela ele quebrou porque teve neto subindo em cima dele. Brincava de carrinho, sentava com a gente na varanda só pra ver os ônibus passarem. Chamava-me de “minha princesinha” e sempre que vinha de João Monlevade para BH, trazia com ele um doce, um chamego, um carinho no bolso. Vovô adoeceu e se foi em 1993, após muitas internações. Se foi dormindo, esse era seu maior medo. No entanto, se foi de forma serena e tranquila, tal como sempre foi. Deixou tanta saudade e amor, que durante um bom tempo, meu irmão, que tinha quatro anos na época, jurava que estava conversando com ele e, muitas vezes, a gente achava que estava mesmo.

Vovô Lincoln não era diferente, também ficava de pijama, deitado no sofá, mas sempre atento ao que acontecia à sua volta. Vez ou outra, especialmente, em dia primeiro de abril, ele ligava para uma das filhas e pregava uma peça, deixava todo mundo de cabelo em pé. “Atleticano roxo” dizia aos netos que se torcessem pelo Galo ganhariam dinheiro, muitas vezes, a gente estava na sala vendo TV e ele mudava de canal só pra chamar a nossa atenção. Com as netas sempre foi cheio de amor, ligava pra gente e cantava uma musiquinha assim: “Ô nega me abandonou por que? Ô nega sem você eu não vou viver”. Vovô Lincoln nos deixou em 1997, após uma queda em casa que fez com que quebrasse o fêmur, entre internações, exames e retorno para a casa. Deixou muita saudade e boas histórias para serem contadas.

Minhas avós, como muitos sabem, são muito da força que tenho comigo. Tenho pedaços delas em mim e sou muito grata por isso. Deixei isso expresso em um texto. Mas, acabei me esquecendo de algumas particularidades...

Vovó Helenita sempre foi uma bordadeira de mãos cheias, quando ela bordava eu sentava no sofá só pra observar a dança da agulha e das linhas, desenhando e dando formas lindas. Pensava comigo: Que tipo de avó eu vou ser, se um dia tiver netos? Não sei nem costurar. Vovó estava sempre pronta para ajudar os filhos e netos no que fosse necessário, tinha uma força tão gigantesca que nem cabia na sua estatura. Era independente demais e, não aceitava que alguém fizesse algo por ela. A gente batia tantos papos sobre tudo... Vovó sempre teve uma memória incrível, um olhar doce e uma forma linda de cuidar.

Vovó Clélia tinha um pingente com o dente de leite de cada neto e, quer saber de uma coisa? Ela sabia qual era o dente de cada um. Cada vez que íamos à sua casa, tinha o doce ou salgado de preferência do neto; eram bolos, salgados, doces... Além de cozinhar, fazia panos de prato para vender. Vovó sempre teve o temperamento forte e “cara de brava”. Era meio que uma “leoa” para defender os seus. Pisa no calo dela pra você ver. Sempre que vinha a BH, batíamos bons papos antes de dormir ou durante o dia quando eu tinha o privilégio de poder estar com ela. No grupo de whatsapp, era ela quem comandava, sempre com os seus áudios, vídeos, posts e mensagens, sempre cheias de carinho e cuidado.

Foi uma honra imensa e uma alegria compartilhada ter tido a oportunidade de conviver com esses quatro grandes seres humanos, que ensinaram, compartilharam, doaram e deixaram uma saudade imensa em nossos corações. Rubem Alves tem uma frase que é mais ou menos assim: “Se alguém que você ama muito morre e você não sofre, existe algo de errado com você”.

Acredito que a vida continua após a morte e que, de alguma forma, eles estão lá orando e guiando nossos passos, mas a presença da ausência é algo que, muitas vezes, é difícil de lidar. Ficam as recordações, as lembranças, o legado que ninguém tira de nós. Tem uma frase que li uma vez, e que deixo aqui, para dedicar aos meus avós, com todo o meu amor: “Creio que tenham se aproveitado de uma migração de pássaros para fugir”.

Agora, falando dos meus pais; Magno e Adriana. Desde que me entendo por gente e compreendo um pouco das coisas, percebo a luta diária deles. Já passamos por muitas situações tortuosas e vencemos, aprendemos e ressignificamos. Tivemos alguns períodos mais difíceis que outros, mas que foram parte da nossa formação e da construção de quem somos hoje.

Minha mãe sempre lutou muito, trabalhava fora e dentro de casa, sempre disposta a ajudar. Muitas vezes, eu digo pra ela: “Mãe, deixa a gente crescer e quebrar a cara, precisamos levar uns tombos pra amadurecer.” Mas, se você é mãe e está lendo este texto, sabe da dificuldade que é para uma mãe ver o filho passando por algum tipo de dificuldade. Tenho muitas lembranças de meu irmão e eu, ainda muito pequenos, indo para o trabalho dela e dormindo entre documentos, papelão e carimbos. Estávamos sempre dependurados nela, um no colo, outro de mão dada. Íamos para tudo que é canto: Shopping, zoológico, parque e etc... Bons tempos...


Meu pai sempre fez de tudo um pouco, acho que já trabalhou em tantas coisas que é difícil saber o que falta pra ele fazer. A luta é diária e constante. E, por mais tortuosas que as coisas estejam, ele sempre diz: “está tudo bem”. Lembro de quando éramos pequenos, os castelos de arroz que ele fazia para mim e meu irmão, e a gente começava a disputar pra ver quem iria quebrar primeiro. Ou, quando sentava pra montar sua maquete ferroviária e, meu irmão e eu, ficávamos olhando e querendo brincar o tempo todo. Ambos se esforçam ao máximo para fazerem o que podem, ou até mais do que podem, para realizar algo. Principalmente, quando se refere ao meu irmão e eu. É como eu disse: a gente não para de lutar.


As vicissitudes são muitas, mas a fé que nos mantém de pé é um laço de amor imenso. Sou imensamente grata aos meus pais pelo legado que eles me deram e me ensinam todos os dias, aprendo sempre. E, com a quarentena, tive a oportunidade de estar ainda mais próxima deles, o que é uma grande sorte.

Aos meus antepassados, meu respeito, minha honra e meus agradecimentos. Parafraseando Bert Hellinger, termino esse texto com um trecho da oração aos antepassados. "Gratidão queridos pais, avós e demais ancestrais por terem tecido o meu caminho, imensa gratidão pela imensidão dos seus sonhos que, de alguma forma, são hoje a minha realidade.”

Se este texto trouxe algum significado para o seu coração e uma recordação boa sobre os seus ancestrais, deixe aqui o seu comentário, que terei prazer em lhe responder.








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