• Ana Reis

ALZHEIMER RESSIGNIFICANDO MEMÓRIAS


Foto: Fotografias que pulsam



Quais são suas melhores lembranças de infância? Elas estão associadas a pessoas que, de alguma forma, te marcaram e permanecem vivas em sua mente. Independente do tipo de relação estabelecida, permanece essa conexão atemporal de momentos vividos de forma única, pulsante, marcante, em forma de grandes memórias! Esse mecanismo perfeito detém a capacidade de absorver e armazenar informações de uma grandiosidade imensurável. Você consegue perceber toda essa magnitude?


Desde criança eu me incomodava com a dificuldade de lembrar determinadas vivências, e por isso projetei minhas memórias a partir da oralidade de meus familiares. Cresci com essa percepção muito forte, e hoje meu trabalho envolve grandes memórias. Por isso, minha leitura é tão sensível e contempla tantos valores afetivos!


Por meio da assistência às mulheres na gestação, parto e pós parto, há uma contemplação de grandes metamorfoses e perspectivas de vida. E, claro, a construção de grandes memórias! A ausência e fragmentação das minhas memórias pessoais de infância, associada a poucos registros, fizeram com que eu me dedicasse à fotografia documental de parto e família, para que essas famílias não tenham a mesma lacuna e sensação de vazio.


Ao contemplar nossas memórias, conseguimos deixá-las ativas e guardadas de forma ilustre em um pedacinho da nossa mente. Com isso, há uma sensibilidade associada ao frescor, cheiros, gostos, alegrias de tempos que não voltam, mas, aquecem o coração. Uma das poucas e intensas memórias de infância que possuo, com certeza, envolvem a culinária! Doce de goiaba, figo e uma esfirra deliciosas feita por minha avó (e ela não cozinha lá essas coisas não), mas, esses três, ela fazia com primor!


Esse imaginário construído, da avó que cozinha bem, compartilha e vivencia o crescimento de forma ativa dos netos, nunca fez parte da minha realidade. Mas, como tudo envolve uma história de vida e aptidões também, percebi como ela nunca gostou muito de cozinhar, mas, quando o fazia, contemplava todos os saberes e sabores! O distanciamento dos netos se deu muito pela criação rígida e dificuldade de expressar sentimentos. Mas, são os fatores patológicos que mais influenciam atualmente no cuidado das suas memórias.


A percepção de outros contextos, muitas vezes, só ocorre quando estamos inseridos nele. E, nesse momento, tenho observado uma constância na atualidade de muitos avanços científicos e tecnológicos, mas, muitas pessoas continuam a ser acometidas por doenças que impedem essa absorção/manutenção das memórias. Muitas são as doenças que ainda não possuem uma probabilidade de cura, e, somente o uso de um paliativo pode melhorar a qualidade de vida dos indivíduos.


O aumento progressivo de pessoas com doenças neurodegenerativas aumenta em uma grande escala, e eu só me dei conta de sua real importância quando ela bateu à minha porta! Eu, enquanto “Contadora de memórias”, me deparei com uma patologia voraz que se chama Alzheimer. Essa é uma doença que afeta as funções do cérebro devido a uma dificuldade no processamento de proteínas, e, aos poucos, afetam algumas habilidades linguísticas, motoras, até a incapacidade do autocuidado. O Alzheimer ainda não tem cura. O tratamento é realizado por meio do uso de medicações e terapias estimulantes, para amenizar os impactos e progressão dos sintomas mais crônicos como agressividade e demência.


Posso compartilhar com vocês que, sempre que uma doença adentra um lar, ela desestabiliza, mas também dá a oportunidade de acolhimento e cura. Pois, ela afeta não só a construção de uma memória individual, mas, também uma memória coletiva de família. Assim me vi durante os cuidados com minha avó, após o diagnóstico inicial de Alzheimer. Uma possibilidade de aproximação para vivenciar uma ausência da infância. Não, não é fácil! É um desgaste físico e mental imensurável, mas, como tudo na vida que envolve amor, há superação e entrega.


Ao contemplar nossos medos, nossas dores e conseguir vislumbrar as dificuldades como uma oportunidade de crescimento, isso nos torna instintivamente mais fortes, flexíveis e pensantes! Muitas coisas não se recuperam, mas podem ser ressignificadas a partir do momento que fazem sentido, e podem ser as respostas que tanto buscamos. Será o Alzheimer (ou outra doença) a “tecla repeat” que nos dá uma nova oportunidade de fazer algo diferente para ressignificar nossas memórias, práticas, relações e sentimentos? No seu íntimo você sabe a resposta!


Um texto pode tocar de várias formas! Compartilhe com os amigos, comente e compartilhe conosco suas grandes memórias.


Abraços!




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