• Layla dos Santos

A MINHA MELHOR VERSÃO


Maio é um mês que me põe a pensar duplamente na maternidade que eu exerço. Minha filha nasceu na véspera do dia das mães, e todos os sentimentos que envolvem essa experiência me tomam nesses dias. Gosto de contar essa história numa versão não muito romântica dos fatos, pois, embora o amor exista, não posso me furtar das pelejas e renúncias que tive que assumir a partir do nascimento dela e no quanto isso afetou o meu feminino. Fez-me refletir sobre o lugar que a mulher é destinada a ocupar na sociedade e qual o papel que eu quis/quero assumir nessa mesma sociedade.


Eu engravidei muito cedo, (parece que seguindo um carma geracional da minha família) aos 18 anos. Na época, estava estudando para o vestibular e tinha todo o pacote de sonhos que uma jovem dessa idade deve ter. Eu namorava desde os 16, sabia dos riscos, mas, por um descuido, aconteceu. Com a descoberta, vieram vários sentimentos que só agora consigo elaborar: desespero, fracasso, medo, insegurança, angústia. Lembro que a noite da descoberta foi uma noite em claro. Ocorreram-me pensamentos de aborto, mas, na época, tinha um passado muito cristão e pouca informação sobre o que me era de direito, e decidimos seguir com a gravidez.


Engraçado como a palavra “decidimos” tem um peso. Essa conta nunca fechou na divisão das responsabilidades com a nossa filha.


Segui com o que a vida me colocou. Assumi a maternidade, dando uma pausa para o vestibular e para a juventude. Minha filha nasceu e eu dediquei o seu primeiro ano de vida a ela. Eu fiz isso num gesto intuitivo de doação e de amor. Hoje, sinto que esse tempo foi muito importante para o vínculo mãe e filha, pra ela se sentir bem vinda ao mundo e pra eu entender o que amadurecera forçosamente em mim. Eu tenho umas memórias dessa época. Os sentimentos que envolveram o parto, eu sou incapaz de descrever. O primeiro soluço foi assustador, porque não passava nunca! As febres que me fizeram ler bulas e calcular gotas x peso. O primeiro tombo doeu muito (em mim). Os conhecimentos que tive que buscar sobre como cresce um bebê, como se alimenta um bebê, como o mantêm seguro, amado, alimentado, nutrido, feliz. Foi muita busca, mas foi muita força interna também.


Passado o primeiro ano, segui o meu caminho, voltei a estudar e fui ajustando os meus tempos ao dela. Enquanto ela tirava a soneca da tarde, eu enfiava a cara nos estudos. Se o sono batia, eu lavava o rosto e assim fui percebendo que a maternidade é solitária. No ano seguinte, já estava na faculdade. Nessa época quis viver as festas, as calouradas, os encontros com os pares. Mas, ter uma cria não me deixava completamente livre, por mais que minha mãe ou o pai dela cuidassem, era uma sensação estranha. Algumas vezes me senti culpada por deixá-la e me permitir viver aquilo que era próprio da minha idade. Era como se meus pensamentos me cobrassem o tempo todo:


̶ Olha, não vai beber muito! Você tem que pegar a sua filha. Eu mesma me martirizava...


Que loucura isso que acomete o mundo das mulheres mães! Além dos julgamentos que a sociedade nos impõe, temos também nossos próprios julgamentos, fruto, claro, de uma educação patriarcal e machista. Precisei de muitos anos de terapia e estudo do feminino, tanto no aspecto político quanto no aspecto do sagrado, para abandonar as crenças que me faziam acreditar que eu não era boa o suficiente e que eu não era digna de conciliar as minhas buscas com uma maternidade.


Hoje, eu tô um cadim melhor! Mas, volta e meia, preciso conversar com esses pensamentos destrutivos, preciso conversar com os preconceitos e expectativas dos outros sobre mim: Qual a necessidade de sacralizar as mães? Porque somente a elas é cobrado esse lugar de exclusiva doação? Porque não temos chance de errar? De redefinir trajetórias e recomeços? Porque a maternidade pode ser um fardo?


Curioso é que minha filha, o sujeito dessa pesquisa empírica, nunca me cobrou uma moeda sobre o meu jeito de ser mãe. Ao contrário, as oportunidades que tem, reconhece o meu esforço e me brinda. Então tá tudo certo! Ás vezes é só questão de “provar pra todo o mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém”.




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