• Renata Batista

DUAS MÃES


Ser mãe é algo que não está ligado ao útero ou a mulher, nem todas as mulheres desejam ser mãe, muito menos é necessário ter útero para isso.


Uma das vias para a maternidade é gerar um filho e nem todos os filhos chegam por este caminho.


No meu caso, a maternidade sempre esteve presente, desde o dia que soube que mulheres geravam filhos.


Como diz minha esposa, quando nasci, não chorei, disse: "quero ser mãe"!


Fui a filha caçula de uma família grande e por isso convivi com muitos sobrinhos. Cada vez que nascia uma criança eu ficava maravilhada. Teve uma época que nasceram três crianças em meses consecutivos, eu simplesmente pirava.


Aos 11 anos dei o primeiro banho em uma sobrinha, ainda estava com o cordão umbilical e eu implorei minha irmã para me deixar fazer isso sozinha. Ela foi me explicando passo a passo e estava atenta ao meu lado. Aquela experiência foi sobrenatural e extremamente marcante, senti uma emoção ímpar, e naquela hora descobri o quanto eu queria viver aquela experiência todo dia.


Minha infância foi marcada pela dificuldade financeira, por isso, decidi que eu iria estudar, trabalhar e ter uma casa antes de ter meu filho. Não queria fazer como as pessoas que eu conhecia que tinham filho primeiro e pensavam depois. Decidi pensar e planejar muito bem.


O meu grande sonho era ser mãe, tudo o que eu iria buscar ou conquistar era para dar subsídio para a realização deste sonho. Era o topo, meu Everest.


Tinha estabelecido uma idade aproximada para que desse tempo para organizar a vida. O curioso era que eu não pensava em casamento, pensava somente em ser mãe. Afinal, ter um marido não me dava a garantia do meu filho ter um pai. Conhecia muitos nesta condição, começando por mim.


Não queria depender de marido, de pai de filho e nem de ninguém, eu queria prover tudo para meu filho. Nesta época, eu não sabia como seria minha maternidade, só sabia que não seria dependente. Ouvia dizer: "Filho é da mãe"! Então eu tinha que estar preparada.


Depois do descobrimento da minha sexualidade, a primeira coisa que me veio à cabeça foi: "E meu filho”? Fiquei desesperada, busquei informações sobre fertilização, estudei, entrei em contato com diversas clínicas e as respostas foram negativas, nenhuma delas realizava o procedimento de reprodução assistida em mulheres homossexuais.


Esbarrei em algo não previsto!


Como resolver este pepino? Pesquisava arduamente, havia informações de outros países, e isso ia ficar caro demais, provavelmente iria demorar mais uns longos anos para juntar todo dinheiro.


No entanto, descobri uma clínica no interior de São Paulo que realizava o procedimento em mulheres homossexuais. Eureka! Já tinha a clínica, agora era juntar a grana e preparar os detalhes finais.


Naquela época não existia legislação específica, desta forma, a clínica decidia em quem realizaria o procedimento. Encontrar esta clínica foi um alívio, mas ainda sim os custos seriam altos, afinal, teria que viajar frequentemente para outro estado.


Depois da formação, do emprego estável, da casa e da idade, chegou o tão sonhado momento.


O Conselho Federal de Medicina havia regulamentado os procedimentos de reprodução assistida, onde estabelecia normas e critérios para as clínicas e casais homoafetivos foram amparados por esta resolução.


No primeiro encontro com minha esposa, eu disse que eu seria mãe em breve. Ela se assustou, pois não via a maternidade como eu. Esclareci que a maternidade era minha prioridade, e que, se não fosse uma opção para ela, estaria livre para seguir seu caminho, pois tinha meus planos. Para minha surpresa e alegria, ela ficou, e embarcou na minha viagem.


Eu, toda cheia de regras e prazos, e ela queria apenas amar, de forma suave... E foi assim que ela me conquistou de maneira tal, que até, por um instante, me fez adiar os planos da maternidade para curtir a vida ao seu lado. Trouxe-me tranquilidade para dividir a maternidade, percebi que não precisava fazer nada sozinha, que ela estava mesmo comigo.


Quando namorávamos, íamos passear no shopping e só tinha olhos para as lojas de bebês, ficava vendo as roupinhas, sapatinhos, berço, carrinho...Ela achava meio maluco passar em lojas de bebê. E falava que, quando fosse a hora, poderíamos ir tranquilamente, mas que aquele momento era para nós. Com amor, me convenceu que era para esperar, mas meu relógio biológico gritava. Eu ficava “boba” quando via um bebê, pedia para pegar na barriga de grávida, me emocionava, era difícil gerenciar. Afinal, era um sonho que foi alimentado por anos e estava tão perto.


Nós nos casamos, e alguns meses depois, estávamos participando de rodas de parto natural para entendermos tudo sobre a maternidade, fisiologia do parto e cuidados com recém-nascidos.


Obviamente, foi bem fácil decidir quem iria gerar um filho. Inicialmente, tínhamos pensado que eu ficaria grávida e, um ano depois, ela ficaria. Mas, como vieram dois de uma vez, decidimos, com dor ( por minha parte), ficar por aí.


Começamos o tratamento de fertilização in vitro, esta foi a opção por nós adotada, por ter mais chances de sucesso. Então, a grosso modo, é assim: os óvulos são retirados e fecundados em laboratório e aguardamos o momento para a transferência para o útero.


Eu iria gerar um sonho e usaríamos o sêmen de doador anônimo do banco de sêmen, então, eu pensei como poderia envolvê-la melhor, para que não se sentisse excluída. Afinal, era meu sonho, já tinha muita norma minha.


Pesquisei sobre o método ROPA (recepção de óvulo da parceira) e perguntei para ela se ela gostaria que fosse desta maneira, ela se emocionou em saber que poderia ser desta forma, e assim aconteceu.


Nós duas fizemos o tratamento, ela para produzir mais óvulos e eu para preparar meu corpo. E foi assim que gerei os filhos (biológicos) da minha mulher.


No dia 18 de agosto de 2014, fomos à clínica para a transferência dos dois embriões, que entraram juntos e permaneceram juntos. O procedimento foi um sucesso e após 38 semanas de gestação, vieram ao mundo, para deixar minha vida de cabeça para baixo, da forma mais deliciosa possível.


Todos os dias quando olho para eles, pergunto como posso ser tão rica, próspera e cheia. Toda minha vida eu trabalhei para isso, sonhei isso e hoje eu vivo o que por muitos anos apenas imaginei. E a maternidade é esta coisa louca, sem manuais, sem receita, mas com tanto amor que consegue nos nortear neste caminho desconhecido.


Ser mãe é especial e importante, totalmente incrível e acima de tudo, ser mãe é responsabilidade. Colocar no mundo é fácil, difícil mesmo é educar, passar valores, construir uma relação de confiança, um elo forte, repetir e repetir dezenas de milhares de vezes e não desistir.


A maternidade é tudo isso de lindo, para quem a vê como beleza. Tudo bem não ver assim, não há obrigatoriedade nisso, e este texto não é para as mulheres se sentirem pressionadas a passarem por isso, pode ser uma experiência desastrosa que pode custar a vida de alguém. Decidam com carinho, se for o que realmente querem. Quando o ditado diz que a maternidade é padecer no paraíso, é verdade! Eu falei do meu paraíso, mas não se esqueçam de que há padecimento.


Aprendemos ser mães. No meu caso, aprendo junto com outra mãe que também não sabe. Com o tempo, com conversas, com pesquisa, com observação, com consenso, vamos acertando e errando, mas com todo amor que existe nessa terra. Longe de sermos perfeitas, mas, fala sério: Ter duas mães é um privilégio de poucos!


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