• Layla dos Santos

PROPÓSITO DE QUARENTENA


Estou a quase um mês de quarentena, e esse texto é pra falar um pouquinho sobre os sentimentos que me atravessaram durante esse tempo. Comecei a ser “quarentener” no dia 19 de Março, aliada a uma TPM surreal e uma dorzinha no coração por conta de uma relação complicada que me envolvi. Mas calma, não é nada grave! Como diz meu psiquiatra, Dr. Marcelo: “De tempo em tempo, você tem um caso amoroso pra contar”!


Então, partindo do princípio que eu estava bem ocupada, sofrendo do coração, e trabalhando arduamente nas minhas plantas e nas faxinas de casa, eu não percebi de cara a dimensão global dos últimos acontecimentos. A ficha demorou a cair.


Passados alguns dias, com o aplicativo de mensagens bombando e pedidos de Reiki, eu me vi imatura e pouco preparada para ajudar. Questionei se eu estava sendo egoísta e muito altista, me comportando alheia ao pânico que se instaurava na face da terra, porque, realmente, eu não estava conseguindo me envolver. Escutei, por um acaso, um podcast com o tema de autocuidado, e ele caiu como luva! Referia-se a autocompaixão como uma das estratégias para o autocuidado, e eu percebi que nunca usei esse “trem”.


Sabe, eu tenho muitos virgens no mapa. E quem já estudou um pouquinho de mapa astral sabe que isso é “vala”! Exigência nível hard. Daí eu pensei: Opa! Eu sou amiga, paciente, amorosa e companheira dos meus amigos, familiares e colegas de jornada e porque eu não consigo ser amorzinho e compreensiva comigo mesma? Por que me cobro tanta perfeição, impecabilidade, produção? (A produção, nesses tempos, nem tem mais sentido, para o desespero do capitalismo) Por que tenho sempre que estar atenta às exigências do mundo, e agora, ainda mais, a um tempo de alerta, medo e pânico? Porque toda essa expansividade?


Daí eu pensei: Eureca! (eu pensei outra palavra, mas achei de bom tom não escrever!) Eu vou usar esse tempo, essa oportunidade para me entender, me compreender, me sacar, não fugir dos meus monstros (que, inclusive, já andaram me visitando em tempos de live de música sertaneja), praticar mais autocuidado e todos os prefixos auto que eu conseguir exercer. Esse momento nunca antes vivido de convivência integral com o reflexo do espelho é uma possibilidade de olhar para aquilo que eu não queria olhar e que procrastinava, colocando a culpa na rotina e nos afazeres de trabalho.


Aí você me pergunta: Layla, como tá sendo? Tá conseguindo?


Daí eu te digo o seguinte: Tem dias que são mais desafiadores. Tem dias que não consigo render nada e fico na cama assistindo TV e pedindo comida por aplicativo. No entanto, até isso já é uma conquista! Lembra-se do papo de ser mais paciente? Mas, na maioria dos dias, tenho sido uma boa companhia. Tenho tentado meditar para controlar a ansiedade e reforcei os combinados com as atividades que me fazem bem e são respiros para o dia.


Eu gosto de passar um “cafézim” matinal e acompanhar o desenvolvimento das plantas; Eu faço mudas para dar de presente num futuro próximo; viro gata brincando de fazer nada com os bichos; danço nas lives; cozinho e testo novos temperos; aplico reiki ; ando de bicicleta, suo; me masturbo; leio os livros que já estavam na fila para ler, estudo um cadinho (essa parte eu posso melhorar), escrevo, canto... Geralmente, as coisas que me dão prazer envolvem artes e a natureza, os humanos só me distraem.


Fiz uma coisa inédita nessa quarentena: limpei o meu rosto com tranquilidade, fiz a sobrancelha, me maquiei, me abracei com o olhar. Tanto tempo que não fazia isso... Olhei para as linhas de expressão meio de rabo de olho e falei: Tá na hora de ligar para aquela amiga e pegar a receita caseira de água de arroz.


Eu tenho seguido satisfeita com o meu propósito de quarentena, apesar de desejar de todo o coração que esses avanços e conquistas tivessem chegado na minha vidinha normal e não precisasse de uma pandemia acontecer para haver uma pausa e nos obrigar a olhar pra dentro, para os sentimentos, o nosso lar que é o nosso corpo e nossos pensamentos. Eu gostaria que tudo fosse diferente, porque já começa a vir um abafamento por ficar tão ilhada em si mesma. Não tenho recebido ninguém aqui, talvez seja a hora de me abrir um pouquinho e acompanhar as notícias pra ficar desesperada. Brincadeira! Como diz aquele danado do G. Rosa:


“Viver é muito perigoso”, mas o que a “vida quer mesmo da gente é coragem”. E isso eu tenho por demais.




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