• Ana Reis

COTIDIANO, UM EXÍLIO DE NÓS MESMOS?


Ao desacelerar, um leque de oportunidades pode surgir para se observar a dinâmica diária, realizada, muitas vezes, de forma rotineira. O possível ato para visualizar de fora esse processo de entrar, permanecer e, muitas vezes, perdurar em um ciclo de repetições e mecanização de viver. São processos involuntários e automatizados que nos inserem em processos sociais e nos conduzem a uma grande e intensa inércia, muitas vezes, utilizada como fuga para sobreviver a nós mesmos. Essa ausência de sentir pode perpassar uma fuga íntima, um exílio interno, pela falta de acolhimento de nossas próprias vulnerabilidades.


Como sabemos, o cotidiano é definido como algo que acontece todos os dias. Até aí tudo bem. Mas, prossegue, com ressalva sobre o cotidiano, como algo comum e banal. Banal? Aí desandou! Tipo angu sabe? Quando empelota e, literalmente, ninguém espera por isso (risos). Para muitos, será uma mera definição de cotidiano, mas, para outros, pode representar um incômodo sobre a banalidade que estar a viver, tornando-se um impulso para ressignificá-lo.


Vislumbrar o controle que, teoricamente, é externo, é cômodo, até perceber que o anestésico é dosado internamente por nós mesmos. Romper com essa anestesia diz da necessidade de desintoxicação de nós mesmos, e sabe de uma coisa? Esse processo pode iniciar no reconhecimento das vulnerabilidades, e oportunidade de uma limpeza interna e externa. Pois, diz de muitos acúmulos, desapego de coisas e pessoas que descrevem grande parte da trajetória, lembranças e fatos que estagnam esse crescimento. Não se trata só da liberação de espaço externo de uma gaveta, armário, mas, a necessidade de dar lugar a algo novo rompendo com a neutralidade, abrindo espaço para a criatividade e expansão seja ela física ou espiritual.


Olhar para si mesmo e se reconhecer como aquele indivíduo engolido pelo cotidiano faz parte do reconhecimento dos fatores limitantes que escondem nossas mais profundas vulnerabilidades. Reconhecê-las é uma das formas mais sublimes de se entregar a um mergulho profundo, rumo a novas possibilidades de autoconhecimento. Mergulhar é uma das mais intensas experiências dessa vida; se você nunca o fez, faça! Aquele friozinho na barriga que agrega desejo e receio, para aprender a respirar debaixo d’água, entender um novo habitat, nadar, se jogar, ir fundo para alcançar a diversidade de peixes e algas, muitas vezes intocada. Se deixar levar pelo balanço do mar, pelo silêncio ensurdecedor e pela profundeza desse mar que transborda dentro, mas, muitas vezes, permanece intocado pela permanência na beleza e segurança da ilha cotidiana, que aprisiona!


Nesse intenso processo, ressignificar o cotidiano pode se tornar espaço de conhecimento, reconhecimento e autoconhecimento. Mas, como você definiria agora seu cotidiano? Para alguns, será bem fácil e automático pensar nas atividades do dia e defini-las; levanta, vai ao banheiro, toma café, pega o carro ou ônibus, cumpre x horas de trabalho, volta, pega trânsito, pensa nas atividades que ainda lhe aguardam, presenteia sua mente com segundos prazerosos pensando em algo ou alguém que gosta! E, rapidamente, se martiriza como se fosse perda de tempo pensar em algo bom. Volta ao pensamento inicial, sabota suas emoções, direcionando sua mente para o amanhã, esse novo dia! Ou melhor, outro dia, porque “novo dia” seria no caso de alguma mudança externa acontecer, que resultará em instabilidade emocional por alguns instantes.


Acreditar no autocontrole é a falsa segurança de domínio sobre o tempo, sobre as percepções, emoções, e sobre as pessoas que estão ao seu redor. Ou seja, se o cotidiano é esse presente tão palpável, como não pensar sobre ele no tempo presente, e como um grande presente?


A imagem que ilustra o texto de hoje é um dos mais intensos registros que me fizeram perceber o cotidiano não como mais uma manhã, mas sim, como uma nova manhã e uma nova oportunidade capaz de transformar o cotidiano em um presente! Um despertar! Quero muito que vocês me mostrem qual imagem representa seu cotidiano no tempo presente, como esse grande presente cheio de novo significado. Aguardo muitos comentários no blog e as imagens com o tema #cotidiano marcando o meu instagram @fotografiasquepulsam.




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