• Renata Batista

RESSIGNIFICANDO DEUS


Religião e homossexualidade são assuntos controversos e que dividem opiniões. Vou contar o que aconteceu comigo, uma experiência totalmente particular.


Quando nasci, fui batizada na igreja católica e cresci dentro de uma igreja evangélica, criada com uma educação "cristã". Fui uma criança e adolescente que sempre teve medo de desagradar a Deus. Outros adolescentes tinham medo do que era comum para sua idade, o meu medo era de ir para o inferno. Então, todo não que eu disse para o errado, era por medo, a obediência cega também era por medo. Aprendi que devemos obedecer aos pais, pois a desobediência gera maldição.


Na minha perspectiva, Deus estava muito feliz comigo. Eu era uma criança muito obediente, logo, minha vida seria muito boa. Minha mãe, que na época, usava os meios que tinha para educar, nunca teve que utilizar seus métodos comigo, parafraseando-a: “não tinha motivos”.


Por sua vez, meus irmãos eram transgressores e minha mãe educava à sua maneira. Eu via a desobediência deles e não entendia como eram capazes de fazer exatamente o contrário do que ela determinava, já que aprendemos a mesma coisa. Minha mãe costumava dizer que não me viu crescer, pois não chamava minha atenção, não teve dificuldade na minha educação. Era uma guerra entre irmãos subversivos e uma mãe durona. E, no meio desta guerra, crescia uma criança que não era ela mesma porque tinha medo de tudo.


Na adolescência, tive que enfrentar a depressão, quase não tinha amigos e não saía de casa. Eu via o mundo como um lugar muito perverso e eu não fazia parte dele, era separada. Mas como tudo na vida tem sua evolução, chegou o momento que tive que enfrentar meus temores e sair de casa para trabalhar. Iria conviver com pessoas que pensavam de forma diferente e tinham uma fé diferente da minha. No meu entendimento eu iria me assentar à mesa dos escarnecedores. Foi muito difícil administrar estes sentimentos, pois a igreja me ensinou que deveria “fugir da aparência do mal” e não deveria me misturar, ou correria o risco de me contaminar e perder o meu propósito. Sair de casa e conhecer pessoas com outros contextos foi o primeiro passo da libertação.


Naquela época, saía de casa apenas para a igreja e para o trabalho, e foi no ambiente de trabalho, onde estava sendo desconstruída, que me apaixonei pela primeira vez. Era uma colega de trabalho. Quando descobri este sentimento fiquei apavorada, fiz de tudo para tirar “aquilo” de mim. Orei tanto. Fiz campanhas de oração. Ia ao monte orar. Fazia jejum. Fiz tudo que a igreja me ensinou para alcançar uma benção. Foram meses a fio me dedicando a libertação deste “mal”. Sentia muita vergonha, e por esta razão não contava para ninguém. Sofri calada. Sem a possibilidade de compartilhar, a opressão chegou ao nível máximo e os pensamentos autodestrutivos eram recorrentes. Já que iria para o inferno, então que fosse mais rápido, não precisaria sofrer com aquela situação.


Na perspectiva cristã pessoas LGBT vão para o inferno. Salvo, se não se relacionarem com alguém do mesmo sexo ou se casarem com alguém do sexo oposto.


Sempre ouvia o quanto era imundo ser gay, que eram pessoas pervertidas, lascivas, que viviam em meio a drogas e crimes. Que destruíam famílias e disseminavam doenças. E só era gay quem queria viver nessa vida ruim, que era safadeza. Minha concepção era a pior de todas, eu tinha medo de me aproximar de pessoas quando ouvia dizer que eram LGBT. Quando via na rua até me esquivava. Queria que ficassem bem distantes. Algo em mim temia aquelas pessoas. Eu ainda não sabia, mas meu medo era por ter algo em comum com elas. Mas a conta não fechava, eu não frequentava os ambientes imundos deles e como era possível eu ser um deles?


Briguei com Deus, e o culpei por me colocar nisso, por me fazer assim, toda errada. De que valeu todo meu sacrifício em tentar ser correta? Eu fazia as coisas certas porque não queria ir para o inferno. Achei injusto, achei cruel e me afastei. As orações não eram respondidas, então pensei que Deus havia se esquecido de mim. Estava confusa, não aceitava, não queria. Quando decidi dar uma última cartada, fui para um retiro espiritual de três dias, estava certa que eu iria voltar curada.


Pedi arduamente esta cura. Estávamos em voto de silêncio, falávamos apenas com Deus, não era possível que Ele não iria me ouvir. Estava apavorada! Nestes dias não pensava na moça, apenas chorava. Quando voltei, percebi que não poderia mais falar com ela, pois os pensamentos voltariam. Então, com muita dor, disse que não poderia mais vê-la. Sofri muito. Era a primeira vez que tinha me apaixonado e eu queria viver este amor, queria conversar, vê-la… mas fiz o contrário, por medo.


Dizem que o trabalho dignifica. No meu caso foi além, me amadureceu como sujeito e me ofereceu a oportunidade de perceber que a pluralidade dignifica ainda mais. Neste processo decidi prestar vestibular para o curso de Psicologia, e ouvi da igreja que Psicologia era coisa de ateu. Bom, na verdade, estar em uma universidade não era bom para as finalidades da dominação, e fui duramente criticada. Minha atitude era completamente divergente, fui de uma extrema passividade e alienação para um espaço de produção do conhecimento e da crítica, elementos que desconhecia. Estava empolgada para aprender mais sobre as pessoas e a mente, e, quem sabe, entender melhor o que aconteceu comigo.


Os dias se passaram. No meu ponto de vista, se eu iria para o inferno mesmo, então iria abreviar o tempo e acabar de uma vez por todas com meu sofrimento. Decidi dizer à moça o que eu sentia, e foi recíproco. Tive a chance de viver o meu primeiro amor. A faculdade de Psicologia me auxiliava com o entendimento e a terapia com o autoconhecimento, aceitação e retomada do desejo de viver.


Orientaram-me a buscar outra religião que me aceitasse como eu era. Não consegui. Estava decidida a entender o que estava acontecendo e tive uma iluminação depois de tanto tempo. Durante toda minha vida, ouvi falar do amor de Deus e do sacrifício de Cristo. E, embora a minha religião diga que eu não posso estar aqui, não conseguia ir embora. Aqui dentro nunca parou de pulsar o meu desejo de estar conectada com aquele que me criou e nunca desacreditei nEle, mesmo com todas as incertezas.


Percebi que Deus não me respondeu, não me curou, não me consertou porque não havia nada para ser curado, não havia nada de errado comigo. As pessoas são diferentes e foi Ele mesmo que fez. E tudo que Ele faz é bom!


O Deus que me apresentaram era um Deus tirano que iria jogar um raio na minha cabeça se fizesse algo errado. Mas, ao passar por este vale, descobri que não servia àquele Deus. Que a igreja, bem ou mal intencionada, me ensinou errado, e, por fim, que igreja não é Deus, não é a voz de Deus. Ele é muito diferente de nós. Não conseguimos defini-lo. Apesar de tudo, nunca nos abandona. Não me abandonou quando eu mesma não queria mais viver. Que independente do que eu faça, Ele está aqui, de braços abertos, oferecendo a sua GRAÇA.


E, com sua graça, tenho minha família. Hoje tento desconstruir a hipocrisia que muitas igrejas pregam, quando fazem as pessoas se sentirem tão mal que não conseguem ver motivos para viver. Estive neste lugar por muito tempo e ressignifiquei minha atuação por ter vivenciado uma experiência desastrosa. Não foi como disseram que seria. Sofri muito. Foi desnecessário. Por isso, precisamos usar a crítica, pois a fé sem razão é alienação.


Seja qual for sua fé, se não for suave, se te oprime… tem algo errado, busque entender.


Compartilha este texto com alguém que você conhece e acredita que iria ajudar de alguma forma.



Afinal, tudo bem ser diferente!




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