• Layla dos Santos

(RE)ENCONTRO AMOROSO


Quero contar a história de um (re)encontro amoroso com a melhor parte de mim. Um saber ancestral de minha avó e de minha família que deu voltas, correu rio e veio desembocar décadas mais tarde em lugares improváveis: eu me dei conta que minha avó era uma anciã e erveira, e me passou muitos conhecimentos em vida, na minha infância, de forma sutil e amorosa. Só fui entender isso muito tempo depois, e explico.


Chegado o ano de 2017, eu resolvi escarafunchar os conhecimentos em ervas medicinais e acompanhei grupos de raizeiras e benzedeiras que participavam de rodas de conversa na região metropolitana de BH.


Para quem não sabe, se faz necessário e urgente promover esse diálogo com nossas anciãs benzedeiras e raizeiras e valorizá-las a ponto de corrermos o risco de não ter mais esse grupo de mulheres sanadoras. Esse saber em saúde popular está se perdendo por alguns motivos, e quero explicitá-los como forma de ação para que essa sabedoria fique conosco por muitos anos.


Nesse sentido, a primeira constatação que fiz é que as raizeiras e benzedeiras estão sendo descreditadas pelo avanço da ciência e o uso indiscriminado da alopatia. A segunda, e talvez a mais preocupante: O evangelismo tem chegado com força e tem convencido essas mulheres sanadoras que trabalhar com as ervas medicinais e com a benzeção é obra de feitiçaria. E a terceira e última: muitas anciãs já morreram, muito conhecimento se perdeu, e as que ficaram estão desmotivadas e \ou com dificuldades de passar o seu legado para suas descendentes.


Dado o recado, volto a falar de como eu me apaixonei pela minha avó pela segunda vez. Não! Seria um crime não falar de como eu me apaixonei a primeira vez: Minha avó me criou para minha mãe poder trabalhar. As lembranças mais gostosas e prazerosas (tirando subir em árvores) têm a ver com a minha avó: sua comida, suas broncas, seus couros de espadas de São Jorge, seus choros ao escutar músicas caipiras, são memórias que eu guardo num baú chamado coração. Eu deixava de brincar para rezar o terço com ela, qual era o tamanho do carinho e respeito. Mas a saúde debilitada a levou cedo e tive que aprender logo o significado da palavra saudade.


Então, passado um tempo, reencontrei com a minha avó, em rostos de senhoras nada parecidos com o dela encarnada. Mas essas senhoras tinham muitas semelhanças: jeitos simples de falar e de vestir, jeito demorado de perceber a natureza e pôr na palavra o que se pode extrair dela, respeitando cada ciclo e cada safra. Essas senhoras cultivam com amor o seu quintal, assim como vovó fazia, e elas me ensinaram que toda planta que nasce perto da gente está a nos auxiliar na nossa caminhada espiritual.


Foi escutando histórias dessas senhoras, como a de pôr saião no ouvido e repolho no joelho, cura inflamação, que puxei da minha memória cenas que vovó fazia de licores, garrafadas, infusões, gargarejos, compressas e simpatias, e me dei conta que vovó era uma anciã conhecedora dos saberes tradicionais e da terra, e fazia uso desses conhecimentos em seu dia a dia, passando para a família na prática, a sua maior riqueza: o uso das ervas medicinais.


Tenho uma memória da casa cheirando a alho e cebola... os netos sabiam que alguém seria vítima daquele chá para a gripe. O “Biotônico Fontoura” com ovo cru. Argui!!! Ninguém gostava daquilo! Mas era para abrir o apetite. Os banhos de chá de picão para “tiriça”. As cascas de ovos para adubar a terra... A reclamação da bola nas plantas...


Imaginem a cena: um espírito desencarnado que se faz presente na fala de outras pessoas contemporâneas para passar um recado para a sua neta. Foi difícil segurar o choro.


Mas foi bem mais fácil seguir esse caminho. A gente acha que é difícil, que é sobrenatural, que é dom. Eu digo que é tão simples, tão sutil, tão amoroso. Hoje moro numa casa cercada por plantas. Hoje volto à casa de minha avó e minha mãe está lá, seguindo os passos dela. A tradição continua. E minha avó também.




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