• Karen Ramos - Colunista Convidada

PELO NO DENTE



Você coloca uma criança menina e um menino numa caverna para crescerem sem influência externa. Quando os tirar de lá, já adultos, ambos serão homens. Correto?


A mulher terá pelos, pois nunca terá depilado, e pelos não são coisa de mulher, logo ela será um homem.


O homem terá pelos no corpo e rosto e será um típico macho alfa. Lindo, NATURAL.


Aparentemente, ser mulher feminina é exatamente o contrário de ser natural.


Fiz uma enquete no meu Instagram perguntando o que as mulheres já tinham deixado de fazer por serem mulheres.


50% das respostas eram sobre medo de ter seus corpos violados em vários tipos de cenários, e 50% das respostas eram sobre pelos. "Deixei de transar porque não estava depilada". "Deixei de usar saia porque não estava depilada". "Me depilei pra ir pra maternidade contra minha vontade, por vergonha."


Antes de continuar, saiba que o intuito desse texto não é convencer ninguém a não se depilar, mas a questionar o que é "Ser mulher" e o que é feminilidade.


A energia feminina, aquela que tanto mulher como homem tem, é a energia que nos traz a intuição, a sensibilidade, a receptividade, acolhimento, paciência... Não tem nada a ver com usar batom, saia, salto, se depilar, pintar o cabelo ou ser frágil.


Já a feminilidade é um padrão de gênero imposto às pessoas que nascem com vagina DESDE QUE ELAS NASCEM (pasmem). São as pequenas violências a que nos submetemos para lapidarmos nosso estado natural e nos encaixar em um padrão de gênero.


Sabe aquele brinquinho que colocamos na orelha do bebê com vagina? É incômodo. Dói! Para quê submetemos um bebê a isso?


Sabe aquele vestidinho lindo e rodado que colocamos na criança de 4 anos pra ir brincar com os priminhos, mas chamamos sua atenção para fechar as pernas e não mostrar a calcinha? Por que não colocamos uma roupa confortável pra criança brincar? Por que já ensinamos desde tão cedo que apenas meninas devem preservar seu corpo?


O que nós mulheres poderíamos estar fazendo com o tempo que gastamos em salão de beleza, em procedimentos estéticos, em buscar alcançar uma imagem aceitável... Quanta coisa faríamos com o tempo que perdemos nos sentindo inseguras com nossa imagem e nos esforçando para maquiá-la?


Atenção: pode se depilar, pode pintar as unhas, pode se maquiar, pode fazer procedimento estético, pode usar vestido e usar salto sim. Mas você está fazendo isso POR QUE MOTIVO mesmo, hein?


Você faz porque verdadeiramente gosta ou nem sabe por que está fazendo?


Eu, por exemplo, AMO cutilar e esmaltar minhas unhas. Hoje tenho a consciência de que não preciso e não deixo de fazer nada se elas não tiverem esmaltadas, mas vê-las assim me traz prazer e faço sempre que possível. Já sobre estar depilada, não me sinto completamente confortável se não estiver. Deixo de usar blusinhas de alça ou fico constrangida com pelos nas axilas mesmo sabendo que não preciso estar depilada se não quiser, mas aos poucos vou me soltando dessas amarras conscientemente.


Tenhamos consciência do que fazemos, tenhamos senso crítico. Tenhamos também força e segurança para não fazermos se não quisermos.


Você faz livremente ou você se sente pressionada (pela força invisível da sociedade) para fazer, se sentindo menos mulher ou menos aceitável se não fizer?


Imagine agora uma FIGURA FEMININA. Foi uma mulher dentro dos padrões de feminilidade? Reflita sobre o que você imaginou.




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