• Isa Mota

CONVERSA DA PRIMEIRA HORA


As mesmas falas de intolerância, cansaço e desânimo, nas salas de professores, em reuniões de pais por anos a fio. Eu precisava fazer algo.


Diante da exigência de implantar uma rotina produtiva e satisfatória nas salas de aula lotadas por alunos ligados à internet, agitados, de inclusão, com inúmeros problemas familiares, surgiu a “Conversa da primeira hora”.


Tenho certeza de que o universo se incumbiu de colocar em meu caminho, pessoas como Caio Plínio e Lucas Veríssimo, e ferramentas como a “Lei de Pomodoro” que possibilitou o sucesso da Conversa de primeira hora. Também coloquei em prática a minha pequena experiência como contadora de história.


Minha pretensão, em princípio, seria identificar as demandas diárias dos adolescentes e encaminhá-las com mais facilidade e eficiência.


Nas primeiras conversas o tema era escolhido por mim, com o aval dos alunos. Eu imaginava que como contadora de histórias, emprestando meu corpo, minha voz e meus afetos, meu texto deixaria de ser signo para ganhar significado nas intervenções, conectando-os a algo perdido, dando contorno e forma a essa memória do bom e do bem que eles possuem, ligando-os ao indivisível e trazendo resposta às inquietações. Três pontos ficaram evidentes nessas minhas primeiras experiências.


O primeiro ponto é que a lembrança do ouvir histórias quando pequenos não estava presente nesse público, cuja idade variava entre 10 e 18 anos, não retinham essa informação, e sim a da televisão, dos vídeos clipes, das conversas com os amigos das "quebradas", "das minas" e raramente com suas famílias. Tudo muito real ocupando os espaços do imaginário infanto-juvenil.


O segundo ponto é que eles precisavam naquele momento de um espaço para colocar suas angústias, preocupações, dúvidas, saudades e desejos.

A partir dessa constatação, iniciam-se nas conversas pelo assunto que estivesse em evidência, entre eles, naquele dia.


Sendo assim, a conversa da primeira hora tornou-se um espaço de convivência afetiva, entre a professora e alunos, onde todos aprendemos muito.


Líamos as noticias do jornal do dia e os assuntos foram diversos, tais como: Irresponsabilidade, crítica, orgulho, crueldade, ilusão, medo, preocupação, vício, solidão, culpa, magoa, egoísmo, baixa estima, impotência sexual, uso de drogas, dependência física, dependência afetiva, rigidez, bullying("aperreação"), ("pagar seguro"), inveja, arte, cultura, polícia, armas, repressão, ser gerente de "boca", sonhos, paixões repentinas amor de mãe, de namorada, de família, não necessariamente nessa ordem.


Peço desculpas pela maneira como coloco o terceiro ponto. "CRIANÇAS/ ADOLESCENTES SÃO COMO CÃES - CÃES DA RAÇA PITBULL": Bravos, farejam emoções, medo, insegurança, falta de sinceridade, descaso á quilômetros de distância, mas quando “AFETADOS” pelo carinho e limite tornam-se acessíveis, dóceis.


Diante dessa percepção, tomo emprestada uma referência pedagógica, já que sou uma educadora, que são os eixos de trabalho pedagógico “I-R-T-C” (INTRODUZIR, RETOMAR, TRABALHAR, CONCLUIR), em uma dinâmica de equipe, entrosada, coerente e perceptiva.


Nesses dois anos de “Conversa da primeira hora” percebi o quanto as crianças e adolescentes estão entregues à internet (celulares e tablets), extremamente abandonados e distantes de convivência familiar, e o quanto sofrem com essa ausência.




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