• Ana Reis

FACE DA ADORAÇÃO NOTURNA




Quais memórias, histórias e visibilidade nós buscamos nas relações humanas? Esse foi o primeiro pensamento naquela noite quando cheguei, em busca de algo desconhecido, pois, precisava ver além e conseguir criar uma imagem impactante. Meu propósito era ir além do que todos observavam, não abordar somente a arquitetura do local e ir além do olhar, com fotografias que pulsam! Caminhei pelos jardins, observei atentamente os detalhes das características estruturais envolvendo querubins e voluptuosas imagens sacras, mas, nada me tocava profundamente. Aguardava e projetava intensamente a captação de uma imagem que envolvesse história local a uma história de vida!


Após andar por horas, sob meu olhar se formou em questão de segundos, uma grande obra de arte inesperada, sutil e impactante. Essa imagem imediatamente me chamou a atenção pela representação da fragilidade envolvendo necessidade, fé e acolhimento. Enquanto todos se mantinham na parte interna da igreja bem iluminada, com alimentos, protegidos do frio, focados em orações, do lado de fora outra história era contada sob meus olhos. Buscando abrigo na marquise da igreja estava uma pessoa em situação de rua, que se sentou, acomodou-se na escada, e, em questão de minutos dormia profundamente e transparecia uma leveza indescritível... O tempo parou naquele exato momento, eu permanecia com cuidado e receio de acordá-la com meu registro, mas, ao mesmo tempo, várias pessoas passavam e se mostravam indiferentes com aquela cena que para mim foi um grande despertar.


Ao observar as palavras “Adoração Noturna” na fachada da igreja e observando, aquela busca por acolhida, me remeteu a uma analogia clara de repensar exatamente a “A/dor/ação - A dor que demanda uma ação”! Instintivamente, fui transportada para um nível de sensibilidade, um olhar fraterno, já que muitos só vislumbravam a imponência do patrimônio, intensa beleza, oração, contemplação, diversidade e suntuosidade. Eis sob meu olhar a clara perspectiva de “Modernidade Líquida” abordada brilhantemente pelo sociólogo Zygmunt Balman, pois ela ressalta o impacto da fragilidade das relações, afetando várias esferas da vida social. Como a imersão e fortalecimento de perspectivas cada vez mais focadas na objetividade, individualidade e modernização estão racionalizando ao extremo; indo na contramão dos vínculos e estabelecimento de relações voláteis.


A fotografia foi nomeada de “Face da adoração noturna”, pois, qual será essa face? Essa identidade que faz parte da história desse lugar, mesmo sem estar presente nas histórias dos livros, nos olhares dos turistas e transeuntes? Essa imagem me despertou, me revirou do avesso e deu mais sentido ao registro das imagens e suas memórias afetivas. Enquanto contadora de memórias o meu propósito é realizar fotografias que pulsam!


Por que essa imagem? Porque destaca nossas demandas e fraquezas e o quanto nós insistimos em fechar os olhos e focar somente no caos interno, vivenciado por cada um, mergulhados em um mundo líquido! Ela é a mais singela tradução do espectro da banalização da vida humana, registro de uma memória que diz muito da invisibilidade social, do nosso adormecimento em relação ás nossas necessidades mais íntimas refletidas do outro.


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